Colunista
Luiz Carlos Zanoni

07.08.12
Um vinho pra chamar de seu

O mistério de como o vinho é feito intriga os apreciadores a tal ponto que, em Curitiba, um grupo decidiu decifrá-lo. No começo eram dez, hoje são dezenas. Leori Hermann, um agrônomo chegado às coisas da boa mesa, puxou o cordão. Ele havia feito o curso de sommelier no Centro Europeu e aí se deu conta do quanto o vinho tem a ver com sua profissão, pois é no vinhedo, território da Agronomia, que se define a qualidade da matéria-prima. Em conversas com outros colegas do curso e com a professora Thays Ferrão, ganhou corpo a ideia de encarar a prática, mergulhar a mão na massa. O empurrão final veio de Fernando Rausis, dono da Vinícola Franco Italiana, que ofereceu as instalações da empresa em Colombo para que o projeto se consumasse. O grupo retribuiu adotando o nome de Wine Club Franco Italiano.

Os manuais asseguram que o vinho se faz por si próprio, sem nenhuma ajuda. Simples assim? Pois é e não é. De fato, basta que a uva amadureça e a casca se rompa para que as leveduras, microrganismos existentes no ambiente entrem em ação, convertendo o açúcar da fruta em álcool e gás carbônico num processo tumultuoso, borbulhante, findo o qual temos o valioso néctar. Esse caldo, feito ao natural, levou ao delírio nosso antepassado que esqueceu um recipiente cheio de uvas maduras num canto da caverna, mas hoje nem para o quentão junino serviria. No vinho moderno a natureza continua dando as cartas, afinal sem boas uvas não tem jogo, mas a sabedoria acumulada ao longo dos séculos faz a diferença. Técnicas como o controle da temperatura da fermentação, a remontagem e a délestage potencializam a extração dos componentes responsáveis pela cor, aroma e sabor, ao mesmo tempo em que a micro-oxigenação e o uso dosado das barricas de carvalho contribuem para o afinamento.

A questão é que não há receitas infalíveis. Os produtores têm de recriá-las conforme as características de cada safra. O Wine Club entrou em seu quarto ano. Como sempre, o primeiro passo será decidir, nestas próximas semanas, a variedade de uva com a qual vão trabalhar. No primeiro ano foi Cabernet Franc, depois Tannat e Teroldego. O pessoal parece desta vez inclinado pela Merlot. As frutas são compradas no Sul, de vinícolas especializadas na variedade eleita, e trazidas para Curitiba em container refrigerado. Os sócios opinam e participam o tempo todo, da maceração às provas na adega, assistidos por Anderson Schmidt e Marcos Vian, enólogos profissionais.

O Wine Club aproveitou uma dessas noites frias do inverno curitibano para desarrolharas safras produzidas. Foi muito agradável. Os vinhos nada têm de experimental, são feitos no capricho, igualam-se aos tintos nacionais de bom nível. A qualidade das uvas é indiscutível, e ajuda muito as instalações da Franco Italiano, modernas, bem equipadas. O Cabernet Franc, safra 2009, está na ponta dos cascos, enquanto o Tannat, engarrafado em março deste ano, requer mais tempo, porém já exibe qualidades. A prova do Teroldego foi de barrica, o vinho ainda não passou às garrafas. Importaríamos menos vinhos se produzíssemos mais tintos assim. O Wine Club opera por cotas anuais. A compra da cota, a R$ 1.200, dá o direito de participar de todo o processo e do rateio final da produção, cada sócio recebendo 48 garrafas. Considerado o valor da cota, a garrafa fica por R$ 25,00, uma pechincha. Quem gostar da ideia pode contatar a Vera D’Andrea, secretaria do clube, em verandrea3@hotmail.com.










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