Confesso que nunca fui muito popular, mas ao longo dos tempos amealhei alguns poucos e bons amigos e, mais ainda, algumas pouquíssimas e maravilhosas amigas. No ano do Senhor de 2011, como gostava de ressaltar meu pai, o dia oito de março caiu numa terça-feira de Carnaval. Ora, desde 1954 é o dia do meu aniversário, e, coincidentemente, tornou-se também o Dia Internacional da Mulher. Uma desleal concorrência, convenhamos.
Tenho notado, por razões óbvias, a diminuição lenta, gradual e segura dos cumprimentos tradicionais nessa data. Não que isso me cause alguma afetação, afinal sou dogmático quando se trata da passagem do tempo e da diminuição acentuada da memória e do afeto das pessoas. Quiçá daquelas que se encontram mais distantes, mais afastadas. O carinho e a atenção que se espera, por consequência, também vão minguando a passos largos.
Ao contrário do que se possa imaginar, já que sou naturalmente arredio, sempre mantive amigas carinhosas que não raramente trabalharam comigo na advocacia, tanto como estagiárias ou mesmo parceiras e colegas de faculdade. Outras, por simples afinidade de um papo inteligente e troca de experiências, além de boas gargalhadas juntos. Naquele ano atípico de 2011, descontado o Carnaval, notei no oito de março uma ausência acentuada dos tradicionais cumprimentos dessas fiéis amigas, tanto por via telefone, torpedos ou e-mails. Lógico que descontei a época e o feriado, mas o fato é que o gráfico negativo tornou-se evidente demais e isso me causou certa melancolia. No entanto, como nem tudo é tristeza, tive no meu aniversário a mais “grata das surpresas” logo cedo, ao acordar. Levantei cedo, fui ao banheiro e ao passar, ainda sonâmbulo, pelo meu celular que se encontrava no balcão da pia, liguei quase automaticamente o aparelho. Nele costumo receber os meus e-mails e mensagens diárias. Então, voltei pra cama novamente e de lá, de olhos cerrados, comecei a cantarolar, mentalmente, Tempo Perdido, do Legião Urbana: “Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou...”. Repentinamente comecei a ouvir bips sinalizando o recebimento de mensagens. Fui contando baixinho... 1, 2, 3, 4, 5... E quando chegou em 30, parei e despertei de vez. Abri marotamente um sorriso exultante e demoradamente pensei, com a cara amarrotada ainda enfiada no travesseiro, o quanto era popular, ao contrário do que imaginava. Pensei comigo mesmo: isso é coisa do Facebook. E eu que penso tão mal dessas amizades virtuais cujo objetivo principal dos participantes é comentar as bobagens e idiotices do dia a dia e aumentar uma gigantesca rede de “amigos”... Mea culpa! Esse negócio de rede social funciona mesmo, pensei. As pessoas são realmente carinhosas comigo, pois em pleno feriado de Carnaval se preocupam em deixar lembranças ao meu aniversário logo cedo. Bons amigos no Facebook pelo menos eu tenho. Que bom... pensei. Entregue ao deleite de ser “querido”, tirei mais uma soneca de meia hora.
A primeira coisa que fiz ao colocar os pés fora da cama foi ir ao celular para ler as mensagens que certamente os amigos enviaram. Queria ver quem gostava tanto de mim assim para logo de manhã me encher de mimos. Surpresa! Enfim, eu era mesmo popular. De fato, eram cumprimentos efusivos pela passagem do meu aniversário e detalhe: todos, absolutamente todos, oriundos de novas amigas. Calmamente resolvi que aqueles e-mails mereceriam ser abertos não num simples telefone celular cuja telinha não merece tanta consideração, mas sim no meu computador, até porque todos eram muito criativos e repletos de aplicativos e anexos. Após o ritual matinal e do café caprichado, lá fui eu ler na telona e curtir meus cumprimentos, afinal novas amigas nessa quantidade é algo absolutamente inédito na minha vida.
Vamos lá, ao trabalho! Tenho a felicidade logo de cara de abrir o melhor e-mail de todos, o que mais me emocionou: a minha amiga TAM, além do elegante cumprimento, simplesmente anexou um filminho onde vários funcionários levantavam plaquinhas com as mais deliciosas frases de homenagens que um ser humano pode receber no seu aniversário. Cada uma representava um elogio: “Você é o máximo!” “Você é um vencedor!” E por aí afora. Confesso que o negócio foi bacana, criativo. Puxa, começar o dia do seu aniversário com uma homenagem dessas é bom demais. Obrigado TAM, murmurei lá do fundo do meu coração. Logo parti para as demais mensagens e todas elas eram provenientes das minhas novas amigas, as empresas. Todas de partir o coração mais empedernido. Amex, Mastercard, Visa, HSBC, CEF, OAB, Confederação Brasileira de Texas Holde’m, Lojas de Departamentos, Consultórios Médicos e Odontológicos, Lojas Virtuais, etc... E, pasmem, até mesmo de amigas internacionais como lojas de Nova York, onde fizera compras recentemente. Sinto que essas amigas nunca mais me esquecerão. Um espetáculo! As mensagens me valorizavam e pronto. Dei-me por satisfeito. Então, reuni minha mulher e meu filho e fomos almoçar juntos num bom restaurante para comemorar mais um ano neste planeta. Mais tarde, recebi alguns telefonemas de parentes e de alguns poucos, bons e fiéis amigos e até mesmo outros inesperados, onde eu achava que o esquecimento tornara-se eterno. Essa vida é mesmo cheia de surpresas, pensei.