Tenho saudade do tempo em que a falta de privacidade se resumia a trocar de roupa rapidamente no vestiário do clube com medo que algum menino entrasse. Morava em um apartamento onde a janela da nossa sala de TV ficava em frente às janelas dos banheiros de um hotel. Não era surpresa um hóspede tomando banho de janela aberta. Isto se resolvia facilmente fechando a cortina. Privacidade para nós e para os hóspedes. O tempo passou e tudo mudou muito. Sinto informar, mas no mundo virtual privacidade não existe. Por mais que todos os cuidados sejam tomados fica uma fresta de janela aberta.
Nunca estou online para bate-papos no Facebook. Não tenho MSN ou Skype. Acho tudo isto uma invasão de privacidade. Quando sem querer, apareço disponível para conversas, vem uma enxurrada de perguntas e a saudação mais irritante de todas: — E daí? Como assim e daí? Me dá vontade de responder: — E daí é que estou online por descuido e não quero falar com você, porque não sei quem você é. Claro que não faço. Não espalhem, a verdade é que tenho vontade de escrever coisa pior. Rapidamente me coloco offline e pronto.
Até a muito pouco atrás, não trocava mais que três mensagens no celular. Não passava de sim, não e um ok para finalizar a conversa. Por uma série de acontecimentos e por total necessidade, hoje respondo e mando. Só que têm horas que não dá para ficar de gracinhas. Chamo isto de “nenezada”. Não que seja ruim, só que não consigo tirar roupa do varal ou lavar louça digitando. Aí é melhor falar mesmo.
Pois bem, tive minha vida invadida. Sim. Meu e-mail pessoal e do blog foram esvaziados. Perdi minhas senhas das redes sociais. Foi alterada a configuração do meu blog. Como se alguém ou alguma coisa o administrasse junto comigo. Uma espécie de sócio virtual. Um pavor.
Tenho compulsão por excluir tudo que me é enviado. Porém existiam coisas que até funcionavam como um alento. Textos bacanas, elogios, informações importantes foram embora. Os e-mails da minha sobrinha neta Marcela eram uma delícia. Um simples bom dia dela era o suficiente para eu ganhar o dia. Tudo se foi.
Chorei como coreano em velório de ditador. É uma violência absurda. Quando penso quem leu ou está lendo suo sem parar. Não existia nenhum segredo cabeludo ou nada que me faça envergonhar. Só que eram coisas minhas e ninguém tem o direito de compartilhar à força minha vida.
A tortura para obter informações está de cara nova. Me senti torturada sem um hematoma sequer ou osso quebrado. Nenhuma luz no meu rosto foi colocada e ninguém gritou comigo. Tortura psicológica pura e simples. Não tenho a noção exata do que mantinha arquivado, talvez por isso passei quinze dias buscando o que despertaria interesse. Até que ponto vai a maldade. Talvez nada aconteça. Tenha sido apenas uma brincadeira de um hacker sem NADA para fazer. Pode estar rindo e achando ridículo tudo que está ali. Um voyeur digital. De qualquer forma vale a pena tomar muito cuidado e se acontecer uma invasão como a que eu sofri fazer boletim de ocorrência. O popular B.O. agora para ciber crimes.
No meio de toda confusão, voltei a fazer bilhetes e cartas. Me revi adolescente buscando uma letra menor e mais bonita. Cuidando de erros já que não tem como deletar e muito menos tenho corretivo em casa. Um exercício bacana de papel e caneta. Como ainda é possível buscar proteção em um tempo ingênuo que o medo maior era que o bilhete caísse na mão de professores e dos pais. Pensem que uma carta sem destinatário e remetente fala menos que o número do IP de um computador. Ser anônimo em 2012, só no mundo real.