Colunista
Fábio Campana

04.06.13
Fronteira

Sou homem da fronteira. Nasci em Foz do Iguaçu. Nessa época, minha cidade tinha uma avenida, algumas ruas e duas fronteiras. Do outro lado dos rios, Argentina e Paraguai. Ou melhor, Porto Aguirre e Porto Franco. Cidades parecidas em sua provisoriedade. Idênticas em seu abandono. Ruas poeirentas, casas rústicas de madeira, pintadas de amarelo com barras vermelhas, protegidas por cercas de ripas pontiagudas.

Longe das metrópoles. Distantes dos governos. Isoladas no centro do continente. Nossos vizinhos, os castelhanos, conviviam conosco em terna solidariedade de povoados esquecidos.

Três lugarejos compartilhando a mesma solidão e os mesmos negócios: o contrabando, a madeira e os comércios da sobrevivência. A monotonia só interrompida por pequenos bandos de esforçados turistas que vinham conhecer nosso maior orgulho local, as cataratas do Iguaçu.

Foz do Iguaçu foi o exílio involuntário para militares insubordinados, funcionários relapsos, padres licenciosos e freiras que desrespeitavam o voto de castidade. Um grupo humano interessante, de qualidades associadas à inteligência e à ousadia. Insubmisso, inconformista, irreverente.

Gente que veio de todo o Brasil para se encontrar, literalmente, no fim da linha. Somados aos imigrantes de todo o mundo. Além dos vizinhos argentinos e paraguaios, éramos árabes, judeus, italianos, alemães, gregos, poloneses, russos, hindus, chineses, japoneses, armênios. Babel de línguas e segredos. Confusão de hábitos, costumes e culturas totalmente diversos. Muitos deles escolheram viver na fronteira por alguma razão especial guardada no passado. Procurando recomeçar a existência no limite do sonho, no limite das esperanças, no limite do país.

Aqui o sepulcro da história. Eis os desaparecidos, os que saíram de cena, os que adotaram outro nome, os que mudaram de rosto e ressurgiram dos mortos. Aqui não há o que temer. Estão ocultos os registros pessoais do pecado, da rebeldia, dos atentados, das guerras e da perseguição.

Aqui foi limpo o sangue dos crimes da paixão. Ninguém deve perguntar a origem das cicatrizes lívidas, da marca que a navalha deixou na face ou onde e quando se desmembrou um braço ou uma perna.

A fronteira em seu limite submerso é o território ambíguo, o espaço dissimulado. Um pacto protege a todos. Véu de silêncio que encobre o ódio, as desonras, as infâmias e as vinganças que corroem as entranhas.

Desde sempre, desde o início, por aqui desfilaram os sonâmbulos em busca de grandeza e fortuna rápida. Em seu rastro, miséria e destruição. Aqui passaram os fugitivos de todas as revoluções. Aqui foram vistos os amantes criminosos, os ladrões do império, os que perderam a razão. Neste lugar se esconderam aqueles que já não podiam viver em sua casa por motivos que a ninguém interessa e que só serão revelados no juízo final.

Essas histórias serão conhecidas apenas quando declaradas inofensivas pelos interessados ou quando transformarem em lendas personagens extintos, ressalvando-lhes a honra e as glórias.

Nada perguntem, eu não poderia dizer. Aqui, no universo móvel, no espaço fluido da fronteira, não há memória. A primeira lei, a regra de ouro: cada um é responsável pelo seu próprio fantasma, dono de seu sonho e de sua frustração, pastor de seus demônios. Outro não pode dispor de seu passado ou escrever sua história.










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