Uma socialite do baixo clero se orgulha de ter um estoque de frases feitas que rivaliza com seu estoque de bolsas e sapatos. É tão grande, diz ela, que não conseguirá gastá-lo até o final de sua vida, mesmo que alcance cem anos.
Suas preferências são frases atribuídas a Fernando Pessoa e Clarice Lispector, duas das grandes vítimas dos falsários e dos farsantes virtuais.
Pois, pois, para o bem e para o mal a internet tornou tudo mais fácil para os pobres de espírito. Hoje, qualquer pessoa que nunca tenha lido um livro do começo ao fim pode fazer de conta que leu e entendeu. Basta usar frases extraídas da própria internet para ornamentar a sua página no facebook. Pronto. A anta ganha ares de intelectual refinada. O idiota passa de asno a cavalo.
A farsa se vale da ignorância comum. O internauta beócio compartilha sua estultícia com nove de cada dez frequentadores da internet. Pode, até, descobrir parceiros de sua indigência cultural com quem se sentirá à vontade e pronto para um novo relacionamento baseado na troca de bobagens que costuma excitar a mente de pessoas burras. Das convicções religiosas aos interesses pornográficos. Da paixão futebolística ao novo escândalo de corrupção na política.
Hoje, qualquer apedeuta tem acesso, sem precisar ir à livraria ou à biblioteca, sem qualquer esforço maior de leitura, a todas as frases de todos os autores de todos os tempos. Vejam bem, as frases verdadeiras e as falsas, pois virou brincadeira frequente atribuir frases e textos a escritores conhecidos e divulgá-los na internet.
Eu fico a imaginar quem faz isso e se o faz para rir da ignorância alheia. A verdade é que os falsários têm público, os farsantes. É comovente perceber como a ignorância nativa reproduz a falsificação com rapidez. Não é difícil explicar o fenômeno. A ignorância fica embevecida com o pieguismo que costuma caracterizar as falsificações. Frases dignas do Conselheiro Acácio são atribuídas a Jorge Luís Borges ou a Immanuel Kant. Versos que parecem extraídos de J. G de Araujo Jorge vão assinados por Pessôa, Rilke, Goethe, Machado, Pound, Eliot e por aí vai.
Pobre Fernando Pessôa. É uma das vítimas preferidas. Nove de cada dez pessoas analfabetas viciadas no facebook digitam frases ridículas e as atribuem ao poeta português que é mais editado num dia de internet do que o foi em livro durante toda a sua vida. Outra vítima é Clarice Lispector. Há até uma antologia para orientar senhoras em decadência que dizem que é da Clarice. Ditados típicos da literatura de autoajuda são agora repetidos como se fossem dela. Pobre Clarice.
São os tempos. De segunda ordem, diria o poeta Joseph Brodski. Estes tempos não parecem propícios à originalidade de pensamento nem às profundezas filosóficas. São tempos de cultura rasa e de rápida propagação do besteirol. A produção é estimulada porque agora tem um veículo à sua disposição, a internet e suas redes sociais, onde se acumula boa parte do lixo cultural que a humanidade produz diariamente. E que a mesma humanidade consome com avidez.
A solução para bípedes desplumados que não toleram a solidão é encontrar nichos de sobrevivência. Eles existem. A salvação para escapar à horda é construir espaços de convivência e interlocução entre humanos que se recusam a fazer parte da manada. São poucos. Sempre foi assim. Mas são esses os que contam. O resto é ruído ou uma coleção de sapatos e de frases feitas.