“Te espero depois das seis.
Beijo
Emma”
Alberto leu e releu a mensagem incontáveis vezes, tomando-a com as mãos trêmulas e respiração grave, fazendo enrugar o papel, cada letra uma vertigem, viva comoção, delicioso momento em que a imaginação confunde a inteligência. Seria ainda capaz de encantar, mais, seduzir uma mulher linda, sensual e jovem?
Petrificado pela inibição, hesitou, duvidou de si mesmo, teria direito a tal alegria? Ele um cinquentão, sisudo e metódico que a viuvez entregou ao silêncio e à solidão, pensava ter aplacado trapaceiramente os caprichos das mulheres entretendo-se em ocupações obscuras e nas aulas da universidade de medicina. Exaltado, comovido, mas também envergonhado por abandonar-se a tais emoções, viu sua experiência e racionalidade naufragarem nas tormentas daquele delírio encarnado, pura concupiscência e idolatria.
Emma, mulata de quadril frondoso, dentes brancos, ornados por uma boca carnuda, olhos cor de mel vivos e agudos, canela fina, seios pontudos e eretos sempre lutando contra os botões da camisa, voz melodiosa e sutil, potranca nova com cheiro do orvalho da manhã. Uma realidade avassaladora que subjugou a razão e que seu corpo queria desfrutar e sua alma servir.
Cedeu às solicitações do prazer, entregou-se ao destino. Emma seria sua alforria, desataria o nó das correntes invisíveis da austeridade e solidão que o prendiam “à sobriedade de sua velhice e seus estertores lastimosos”.
Caminhou pelo passeio carregado de gente e tropeçando na ansiedade, na mente transgressão e desregramento, afinal “só vivemos realmente algumas horas de nossa vida”.
Quando a viu, incorporou uma ebulição passional, vontade de depravação, difícil silenciar o demônio que o atormentava. Diminuiu o passo como o leão que se aproxima da corça, veio eriçado seguindo os rumores do coração.
Saudou-a com malcontida excitação, que tentava disfarçar modulando os gestos e a voz. Ela o recebeu com encantadora e sutil reverência, que o fez latejar entre as pernas. Dobraram a esquina em silêncio, quietude loquaz que vinha da visão daquela garupa generosa e aqueles peitos firmes.
— Dr. Alberto, quero lhe pedir um favor.
Praguejando contra uma inédita gagueira: — Só Alberto, Emma, Alberto, por favor.
— O que você deseja?
— O senhor me perdoe, é o hábito e a educação recomenda tratar assim os mais velhos.
Solavanco no peito, calor súbito, ódio daquela sinceridade. A vontade de esbofeteá-la violentamente reprimida pela vã esperança num ardil, um pequeno charme, ignorou o chiste e perseverou no galanteio.
— Você é linda. Sabia que seu nome inspirou o romance Madame Bovary?
Espantada, estalou os olhos e desatou em gargalhada. — O Senhor... É... Você me desculpe, não sabia, você fala coisas tão, tão, tão, é, é humm, difíceis, bonitas, sei lá.
Cego pelo desejo, transformou aquele balbuceio em sinal de aceitação, delirante não se deu conta da tediosa aflição da mulata, ardendo de excitação, tentou beijá-la e apalpá-la ali mesmo na rua.
— Credo Dr. Alberto, o que é isso? Sentiu-se insidioso. — O que o senhor pensa que sou? Me chama de madama sei lá o que, e agora vem pegando, eu heinnn.
— Por favor (a gagueira impertinente), Emma, desde que te vi, te quero. Quando você me pediu que viesse te encontrar, fiquei louco, não me controlei.
— Pois devia, que decepção, esse não é o comportamento de um homem da sua idade, velho assanhado, taradooo.
Calou-se, rubro de vergonha, olhou de lado para ver se alguém testemunhava seu oprobioso ocaso. A indiferença das pessoas aliviou um pouco a humilhação, somente um cão vadio passeava por ali.
— O que você pensou hein? Fala Dr. Alberto?
— Perdeu a língua velho? — Velho e sem vergonha! Eu só queria uma receita, uma receitaaa, nada mais.
Ela afastou-se a “passinhos de burro”. Ele envergonhado, tentando retomar o fôlego e a firmeza das pernas recostou-se em uma parede qualquer. Carregado de solidão, sabia que amanhã seria igual a hoje, exasperado implorou:
— Emma, por favor, eu pago.
Ela ouviu e parou...
O cão vadio ainda estava ali.