Venho pensando longamente sobre a grande questão da humanidade que é o nariz. Pois o nariz, metido entre os olhos, é pouco visto pelo dono, mas nunca sai da vista do interlocutor. Grande ou pequeno, feio ou bonito, lá está ele, bem no meio da cara do sujeito.
Talvez seja essa onipresença do nariz nas interações sociais que faz dele coisa tão polêmica. Dizem os especialistas que o nariz feio encuca homens e mulheres desde os tempos dos egípcios. Tanto é que a rinoplastia é a mais antiga das operações estéticas.
Pois bem, antes da cirurgia de nariz, havia fuças para mais de metro. No sentido figurado, é claro. O maior nariz da história é atribuído a um inglês, Thomas Wedders, que viveu no século XVIII. Pasmem: Wedders desfilava ventas de 19 centímetros!
Mas apesar da pungente napa, não há notícias de que metesse seu nariz grande no assunto alheio. Desse mal, Wedders não padecia. Mas, infelizmente, há muitos que padecem. Antes um narigão bem posto em seu lugar a uma fuça pequena e empinada metida na vida do próximo. A triste doença se alastra e não escolhe modelo ou tamanho. Há ventas de todos os tipos que decidem enfiar-se onde não são chamadas.
Ó céus, ó vida, ó azar. O mote da hiena ranzinza de Hanna-Barbera ecoa na minha cabeça toda vez que encontro uma mexeriqueira. Fosse eu não uma hiena ranzinza, mas um altivo leão da montanha, e essas senhoras seriam devoradas de súbito. Mas minha natureza só permite o lamento e as bisbilhoteiras seguem a vida como felizes gazelas.
O que foi que sucedeu para tamanha amargura?, deve estar se perguntando quem chegou a esta altura do texto. Nada de grave, confesso. São apenas acúmulos de vida inteira. Um desdém que nutro desde sempre por gente que mete o nariz na vida alheia.
Bem aventurado aquele que não conhece uma fofoqueira sequer. Digo fofoqueira porque, por mais duro que seja admitir, o mal acomete com maior frequência e intensidade o gênero feminino. Assim como os fofoqueiros podem ser tios, sogras ou sobrinhos, mas tomam habitualmente a forma de vizinhos.
Talvez porque o propínquo disponha da logística ideal para meter o nariz na sua vida e a boca no mundo. Junta informações com porteiros, faxineiras e visitantes a fim de formar um relatório mental sobre o habitante da porta ao lado. Depois despeja tudo torcido e retorcido para o mesmo público, ávido por notícias.
Mas há dentre o povo do nariz grande um tipo que me irrita mais que todos os outros. Particularmente me enerva a figura do “professor de Deus”. Aquele que, em si, só vê virtudes e, nos demais, projetos de reforma. E o pior, crê sempre ter sido convidado para uma discussão pública daquilo que não lhe compete.
A triste constatação é que não são poucas as figuras com narizes do tipo que rondam por aí. Fato é que a cirurgia plástica melhora muito a cara da gente, mas há mais entre a fuça e a língua das fofoqueiras que possa consertar nossa vã medicina estética.