Ela era pequena. Tinha uns 8 anos. Brincava sozinha com seus moldes de barro que fazia dentro dos tijolos. Construía uma casa. Depois, desenhava em uma cartolina branca com lápis de cera um menino, uma menina, um sol com nuvens, uma árvore com maçãs, um pássaro e uma casa com chaminé. O menino e a menina sempre de mãos dadas. O sol sempre brilhando. As maçãs sempre vermelhas. Quando cansava, deitava no chão e via as nuvens formar outras coisas e sempre tentava adivinhar o que era. Descobriu a biblioteca. Armários de madeira escura até o teto, de cheiro doce. Ao lado, uma estante com enciclopédias médicas. Havia ali um mundo labiríntico e mágico. “Reinações de Narizinho”, todas as personagens de Monteiro Lobato, as aventuras, a alegria, o bom humor, as conversas, o sítio, tudo tão próximo, tão íntimo e tão eterno. Depois veio Julio Verne e suas fantásticas histórias, “Vinte mil léguas submarinas”, “A volta ao mundo em 80 dias”, “Viagem ao centro da Terra”, os gibis, os quadrinhos. Havia uma pausa da leitura quando ouvia as contações dos avôs. A imaginação ia além. A minha e a deles. Olhos transbordados de mar. Os livros de receitas da avó, o primeiro álbum de quadrinhos da outra avó. Olhos cheios de sol.
Depois que lia tudo, saía para comprar tecidos e fazer roupas. Fazia seus vestidos vermelhos até o pé ou escolhia a dedo na loja. Porque era assim que gostava. Cortava os próprios cabelos, curtos, com franja, e os enchia de grampos. Observava os homens da família que vestiam azul-marinho, com ternos feitos por alfaiates. A partir daí começou a gostar do ofício. Achava uma arte cortar um tecido, fazer um molde, criar uma roupa. Perfeita, proporcional, impecável.
Entre os corredores brancos, as manhãs nasciam contentes. Deu para ter uma borboleta de estimação, que durou certeiros 7 dias, e quando morreu fez um enterro de pompa, a pôs junto a um vaso de flor, e rezou. Tinha uma cadela também, a Bolica, que durou anos.
Passou assim sua infância, protegida por um amor sem fim, por alegrias imaginárias e reais, por seres, histórias, pessoas, coisas, que surgiam entre a noite e o dia. Entre a calma e a descoberta. Levou isso consigo para toda a vida, e assim vive e pensa e sente até hoje. Acredita que será para sempre, para que não se esqueça da delicadeza sem fim.