Ela não está mais ali. Nunca mais a verei na paisagem altiva, na escada da casa, na pista de dança, deitada no tapete. Ela não está mais ali. Procurei-a por todos os lados, nas ruas, nas esquinas, nas sacadas. Abri todas as portas com a esperança que entrasse sorrateira, suave, curiosa. Ela não veio. Há anos eu a espero e ela não vem mais.
Descobri que ela mudou, está em um lugar que insistem em dizer que não existe. Que maluquice, devem pensar. Quando abro a janela, ela entra. Quando caminho ao redor do lago, ela está ao meu lado com seus passos rápidos e eu tento alcançá-la. Quando sonho, ela surge, intensa e febril, como se ali fosse o plano possível.
E continuo o dia com o que se apresenta ao meu redor. Coisas, apenas. Sufoco essa respiração até que ela pare. Pare. Não sinto mais. Como um vento que não cessa, ela vem novamente. Um aviso para que eu não a esqueça, para que eu continue essa busca, para não desabar.
Escovo meus cabelos que estão mais longos do que imaginava. Penteio-o quase cem vezes, me olho no espelho. Nada mais delicado e prazeroso do que escovar os cabelos, penso. Olho para o espelho emoldurado e ela me olha, como se permanecesse ali.
Ali, ao lado, para sempre.
Quando amanhece, volto às coisas inúteis, volto ao pão com café, à cama que continua desarrumada, às roupas caídas na cadeira vermelha. Tropeço na blusa branca de renda bordada com flores, e, num instante, ela aparece.
Ali, ao lado, para sempre.