Colunista
Luiz Geraldo Mazza

09.05.13
Futebol, arte do exagero

Coelho Neto, o escritor parnasiano, tinha paixão por futebol e especialmente por seu filho, Preguinho, centroavante do Fluminense e da seleção, goleador de primeira. Já um romancista bem superior, Lima Barreto, tinha horror da bola e de que não fosse um instrumento de evolução dos seus iguais de cor, como mostrou Mário Filho na obra exaltada por Gilberto Freire O negro no futebol brasileiro.

Há intelectuais, como o caso de Lima Barreto, que detestam a bola, mas outros a enaltecem como o lapeano Ernesto Luis de Oliveira, que se orgulhava de ser o pai do Luisinho, do escrete de 1938, e que deixou uma página imortal em que tira sarro de um jornalista sisudo por se irritar diante do fato de haver falado em bosta como professor de agronomia a agricultores da Lapa e não haver usado um eufemismo menos agressivo. Daí tascou “O Elogio da Bosta” para criticar quem o censurara, transformado em peça de vanguarda e enaltecido ao exagero por alguns que nele viram sinais do nouveau roman.

E é de exagero que vamos falar quando tratamos de futebol sempre ditado pela paixão. Um dia saí da casa do meu sogro, atleticano, e fiz companhia ao seu vizinho, também rubro-negro, Túlio Pereira. Pegamos o bonde no Juvevê perto da rua dos Funcionários e nos dirigimos à Baixada. Na entrada do estádio cometi o pecado de revelar minha condição de coxa-branca e isso levou o Túlio, muito mais velho, à exasperação, não se conformando com o fato de um atleticano ter um genro coritibano e de haver viajado com ele sem revelar o segredo. E dizia, irritado, que havia no meu ato uma quebra de respeito e me mostrava o guarda-chuva ameaçador como uma espada como se me desafiasse a um duelo.

De cima do vagão

Em 1950, Copa do Mundo, com dois jogos em Curitiba, Espanha x Estados Unidos e Paraguai x Suécia, inimagináveis para a disputa do ano que vem quando teremos apenas um cabeça-de-chave entre nós. Vi os dois jogos muito mal porque estava acomodado num vagão da Rede Ferroviária no pátio de manobras logo atrás do estádio. O pior é que de vez em quando o maquinista ameaçava o movimento e ir-se em direção à Roça Nova e chegar à área de túneis, o que nos apavorava. Acabamos aprendendo o equilíbrio necessário para lançar-se de um vagão em movimento. Dois jogos, duas caronas. Não foi certamente por causa desses espectadores furtivos que a Copa obrigou Moysés Lupion a meter a mão no bolso de palhaço para cobrir os prejuízos do evento.

Irmandade rompida

Minha irmã, Alba Veiga Mazza, torcedora-símbolo do Coritiba, que vivia numa cadeira de rodas e tinha no futebol e no coxa uma razão de viver, às vezes extrapolava no fanatismo, embora não discriminasse dirigentes e jogadores de outros clubes. Num dia, em comentário no Canal 12, programa Telegol, fiz apreciações duras sobre a maneira de jogar do Coxa e foi o suficiente para que ao terminar o programa ouvisse a imprecação bíblica “você não é mais meu irmão!” Dá para imaginar o que diria hoje se viva fosse quando me irrito com a prodigalidade de gastos com a burocracia do clube, seus muitos pernas de pau e que resumo numa frase: “O Coritiba não vale o que custa!”

Como Cesar e Brutus

Estou no gol dos fundos do Estádio “Franklin Delano Roosevelt”, o campo do Juventus. De repente, um ataque do coxa e o juiz Ataíde Santos marca aquilo que não vi, um impedimento, para um belíssimo gol. Ponho as mãos perto da boca, para dar o máximo eco à voz e grito “ladrão!”

Ataíde me olha e responde “Até você, Mazza!” Quase com a mesma arte e a dramaticidade de Cesar, ao ser apunhalado por Brutus, tasca em latim o grito de inconformismo e desespero Brutus tu coque mi fili, que traduzido para a língua plebeia significa “Até tu a quem considerava meu filho!” Sem a arte do exagero é impossível conceber o futebol, essa a razão dos textos de Nelson Rodrigues, o que melhor traduziu tudo isso.

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