Entrevista com o premiado Rafael Camargo mostra com quantos rostos se faz teatro de verdade
É enorme o seu trabalho em todas as faces do teatro. Ator, diretor, dramaturgo, compositor, escritor de crônicas e contos, consultor de empresas. Seu trabalho não se limita ao Paraná. Já fez de tudo no teatro, com gente famosa e com amadores, pelo Brasil afora. Dirige espetáculos de todos os tamanhos, em qualquer espaço e para todos os públicos. Conversar com Rafael Camargo parece estar diante de um mágico de circo que tira histórias da cartola. E ele tem muitas para contar.
Ideias: Rafael, qual foi o início do seu caminho no teatro?
Rafael Camargo: O teatro começou em Antonina com o Rio Apa. Com a apresentação da Paixão, algumas performances no colégio e circo no quintal. Sempre palco, sempre palco. Depois, aqui em Curitiba, formação no Teatro Guaíra, no Curso Permanente de Teatro e na Orquestra Filarmônica de Antonina, que me deu a formação musical.
Você estudou música?
Tocava clarinete. Era o primeiro clarinetista. Isso há uns trinta e cinco anos, mais ou menos. Depois, em Curitiba, na Escola Permanente de Teatro, o CPT do Guaíra, aí fizemos um espetáculo chamado “Vamos Transar”. Foi o primeiro espetáculo no Brasil sobre sexualidade para adolescente. Veio um diretor da Dinamarca e um grupo alemão que escrevia para jovens que se chamava Rotte-Gautz. Estourou, as filas davam voltas no Teatro Guaíra para assistir à peça. A gente ficou no Mini-auditório quatro, cinco meses em cartaz. Depois fomos para São Paulo e Rio, e eu fiquei por lá. No Rio, comecei a escrever. Escrever para teatro, escrever um pouco para cinema, para televisão, fiz alguns espetáculos no Centro Cultural Banco do Brasil. Trabalhei com nomes como Paulo Afonso Grisoli, Claudio Torres, Ednei Giovenazzi, Ari Fontoura, Cristina Pereira, Elias Andreato. Fiquei um tempo com o Ari, com o grupo dele, viajando pelo Brasil todo com algumas comédias e foi uma escola incrível. As pessoas acham que a comédia é mais fácil, mas é bem mais difícil que o drama. É mais difícil fazer rir do que fazer chorar. Foi um exercício espetacular porque a gente tinha durante três ou quatro anos excursões intermináveis pelo Brasil todo, fazendo casa cheia e exercitando a comédia. Fazia bem para o espírito trazer alegria para as pessoas e também para o oficio de ator. Fazer todos os dias é aprender que a comédia é extremamente aritmética e sistemática. A comédia é muito mais séria do que a gente imagina. A gente acha que o comediante é só improviso. Quando você está com um espetáculo há três anos e é uma comédia, ele é extremamente sistemático porque tem que fazer todos os dias exatamente a mesma coisa.
Que ano você começou tudo isso?
Eu comecei em Curitiba em 1981, na Escola de Teatro. Foram dez anos aqui entre escola, algumas montagens e o “Vamos Transar”. O “New York”, com o Edson Bueno, fez um sucesso enorme também. Foi a primeira montagem do Will Eisner e eu tenho até uma foto na casa do Eisner, eu de The Spirit e ele apontando para mim. É fantástica.
Quem mais foi importante?
Ademar Guerra. Que apareceu na minha vida, foi espetacular e com quem fiz a “Noite na Taverna”. Foi demolidor no sentido de desconstruir tudo que eu tinha de mentira dentro de mim. Foi dolorido demais, mas foi libertador. Mudou a minha relação com o palco, com o teatro porque até então era uma representação um pouco mais simples e um pouco mais tímida. Depois do Ademar Guerra, veio algo um pouco mais vigoroso, orgânico, inteiro, físico mesmo. Mudou minha visão de teatro. Aí comecei a escrever coisas um pouco mais densas, pesquisa corporal e vocal, e escrevi a “Anta de Copacabana”. Um monólogo. Foi uma das experiências depois de uns anos do Ademar e de uma reflexão sobre a vida, sobre o teatro, sobre a loucura, sobre a solidão, sobre o ser humano que veio a “Anta de Copacabana”.
A “Anta” tinha um personagem específico ou foi um misto de personalidades?
É um mix do humano, uma metáfora sobre essa questão que a gente não tem muita resposta sobre o que é viver, sobre o que é estar preso aqui. As pessoas temem tanto a morte, mas não têm noção que, enquanto se está vivo, se está preso. Daí “Tantã”, que eu escrevi na Casa da Gávea, no Rio, um centro cultural da Cristina Pereira, Paulo Beth, José Wilker, Eliane Jardim. Uma peça que foi um monólogo que a Cristina Pereira fez e que eram nove mulheres e que também tinha um pouquinho a ver com a “Anta de Copacabana”. Só que a “Anta” era uma entidade só, e o “Tantã” eram mulheres de 50 anos e sós. Então, uma viúva, uma recém-separada, outra que nunca se casou, uma prostituta, mulheres no limite da sanidade, da saúde e da solidão. Foi um sucesso no Brasil. A peça viajou pelo Brasil e, como dramaturgo, eu consegui um trabalho que houve um respaldo de público e de crítica que foi um sucesso. “História de Cronopios e de Famas”, um livro do Julio Cortázar que eu adaptei pelo Centro Cultural do Banco do Brasil e foi super bem recebido, fez Curitiba também, fez São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. Foi um espetáculo extremamente poético, bem construído e bem aceito. Quem leu o livro e viu o espetáculo percebia que tinha todo o sentido o que a gente estava colocando.
Você falou do Julio Cortázar. Parece que você tem esse caminho de pegar textos de grandes escritores e construir um espetáculo a partir deles. Como é esse processo?
Meu mundo é o palco. Quando eu leio alguma coisa que me apaixona, que me move, que me traz movimento interno, eu quero que as pessoas vejam no palco, que é o lugar onde eu me expresso, que é o lugar onde eu sei me expressar, onde eu me sinto bem, onde eu me sinto vivo. Daí que ocorreram as adaptações.
Mas como é esse trabalho de pegar a obra inteira de um autor e pinçar trechos, ir costurando e encadeando o texto?
O “Pessoalmente Fernando” é uma adaptação do Edson Bueno, que eu trabalhei de ator. O Edson faz muito bem isso, suas adaptações são muito boas. Estou fazendo com a Helena Kolody, com a Hilda Hilst, Nelson Rodrigues... é esse universo de estar em um lugar que é o meu habitat natural. Para mim, o palco é o lugar onde eu mais me sinto à vontade e inteiro. Sem nenhum problema, mesmo com todas as dificuldades que é fazer teatro, que foi a minha opção de vida de fazer teatro nesta cidade, neste Estado, neste País. É uma luta diária de vocação. Nem tanto talento, eu tenho mais vocação para o teatro. Escolhi o teatro porque eu tenho vocação e daí, um pouquinho de talento me ajudou na minha vocação. A obra que me encanta, que me deixa vivo, que me atormenta no sentido de me mover e me tirar do lugar faz com que eu precise dividir isso com as pessoas. E eu só consigo dividir no palco porque é lá que eu tenha a intimidade e coragem de me expressar. Eu tento traduzir para as pessoas através do meu olhar, através da minha alma, do meu espírito, na minha vivência o que eu vejo naquela obra daquele artista, naquele autor, naquilo tudo.
E como é que você está conciliando duas autoras, completamente opostas em estilo e em vida, como a Helena Kolody, a “avozinha curitibana” e a Hilda Hilst com todo aquele furor?
Eu acho que as duas estão me equilibrando. Elas são tão opostas, tão diferentes. Quando eu faço um trabalho de adaptação eu mergulho tão profundamente na obra que se eu fizesse só Hilda seria muito perigoso, ia ser muito arriscado (risos). Então a Helena surgiu para me segurar um pouquinho, para me equilibrar com toda a candura, a calma, a singeleza, a quase sublimação do viver da Helena me segura um pouquinho porque a Hilda tocou total, era o “foda-se!”. É impressionante como as duas surgiram.
Quando eu fiz o Julio Cortázar, eu comecei a ler sobre o Júlio, sobre a vida dele, algumas obras e comecei a fumar o cigarro Gitanes, que eu nem fumo, mas eu comecei a fumar o Gitanes, um cigarro francês, tomava conhaque e escutava muito jazz como ele, para entrar no universo dele. Mesmo eu adaptando um texto, tem o trabalho de ator. Eu saia nas madrugadas no Rio, depois de tomar um pouco de conhaque e fumar o cigarro dele, ler os livros e começar a construir os diálogos, eu andando e lendo o “Jogo de Amarelinhas”, que a metade se passa na Argentina e outra metade em Paris. No Rio as pessoas põem muitas coisas fora, é uma cidade muito antiga e as pessoas colocam móveis e objetos que não usam mais na calçada. Era de madrugada, eu no Aterro do Flamengo passeando, encontrei uma mala de couro escrito Paris - Argentina. Eu disse “tá tudo certo”. Era o sinal!
É fácil fazer teatro aqui em Curitiba, no Paraná?
Acho que é. É fácil fazer teatro sempre. É sempre difícil fazer teatro, essa é a loucura! Existem as dificuldades da miséria que a gente vive, normalmente em condições muito precárias, é muito difícil você sobreviver só disso. Por isso que as pessoas desistem muito do teatro. É difícil um ator da minha idade, as pessoas que começaram comigo, os homens da minha idade, 30, 40 jovens que começaram comigo, hoje tem três ou quatro atuando. Só quem tem vocação mesmo é que toma o teatro como opção de vida. É muito difícil, é muito difícil produzir e competir com a televisão, competir com o cinema, competir com a internet. É muito difícil você fazer com que as pessoas saiam de casa para ver algo que é artesanal, e ao mesmo tempo espetacular porque é humano. O que mantém o teatro vivo ainda é isso, porque, quando as pessoas saem de casa e assistem a uma peça de teatro, existe um encantamento e uma vivência que é completamente diferente de uma tela ou de um teclado de computador. O que nos salva ainda é o que nos resta de humano. Enquanto existir um pouquinho de humano o teatro está vivo. Eu acho que se as gerações futuras se tornarem tão cibernéticas e tão tecnológicas, não sei o que vai acontecer no teatro.
Você já ganhou vários prêmios como ator e dramaturgo, inclusive o Prêmio Gralha Azul, o maior do teatro paranaense.
Sempre é bom ganhar prêmios. Quando a gente não ganha, a gente diz que “não é muito importante”, mas quando a gente ganha, a gente acha que é (risos). Eu acho que é bom, é o reconhecimento da classe, é o reconhecimento de pessoas que pararam para observar o seu trabalho. É muito subjetivo o julgamento porque depende do dia em que você fez o espetáculo, de qual espetáculo você está fazendo, ou de que jurado foi lhe julgar, de que estado de espírito aquele jurado estava no dia, que relação ele tem com a sua vida, que conhecimento ele tem do seu trabalho. Mas um prêmio é sempre bem-vindo. Sempre. E o Gralha eu tenho seis. Também tenho alguns de festivais nacionais de teatro, de Florianópolis, Belo Horizonte, interior de São Paulo.
E está tudo na prateleira?
Está em Antonina. Eu tenho um cenário de uma peça que escrevi chamada “End”, que era um tabladozinho com um vaso sanitário. Eles estão todos em cima dessa privada. Porque no teatro a gente sempre fala “merda”, “merda”, e eu achei um lugar próprio para homenagear os prêmios todos em cima da privada, que é o lugar da sorte no teatro.
Falou de Antonina. Você é diretor da “Paixão de Antonina”, que é um espetáculo grandioso, já inserido no calendário turístico e religioso paranaense. E ao mesmo tempo você faz coisas minimalistas, com um ou dois atores, três cadeiras...Como é isso, estar entre o grandioso de 200 atores e um espetáculo pequenino?
Helena e Hilda Hilst. É o buscar apenas o mínimo, a essência, o necessário e também ir para a total extravagância. Quem viu, por exemplo, o “Linguiça no Campo”, espetáculo que fiz no Festival de Curitiba há uns oito anos, era extremamente extravagante, agressivo, transgressor, violento, provocador, tinha gente que gritava, que saía do espetáculo. Eram duas plateias e o espetáculo desfilava no meio. Era um desfile de provocações. Espetáculo pop, jovem, era uma revista pop e que foi um divisor de águas para muita gente que assistiu e para muita gente que participou. E, ao mesmo tempo, eu faço a Helena Kolody, que é uma orquídea, que é uma flor, entende? Então isso me equilibra. O teatro me proporciona isso: eu poder ir para o pequeno, para o sublime, para o delicado e também ir para o extravagante, o agressivo, um rock and roll no sentido da força.
E é o que acontece com a Paixão de Antonina, que você trabalha com voluntários. Como é isso?
São 200 figurantes e mais os voluntários para ajudar na construção dos cenários, dos figurinos, das tochas, na construção do espetáculo. E tenho os amigos famosos, que vêm do Rio e São Paulo para fazer voluntariamente o espetáculo, porque percebem que existe ali uma possibilidade de encontro. A gente fala de afeto, que é a história da Paixão, e as pessoas percebem que há uma relação de afeto, um ritual de encontro. As pessoas vêm do Rio de Janeiro de graça, deixam seus compromissos e seus cachês milionários, para fazer a Paixão de Cristo em Antonina, assim como o morador da cidade que não é ator, que nunca fez teatro, que é funcionário público, é costureira ou que é o contador da cidade. Eles fazem todos os anos os personagens e têm aquilo como uma entrega e como possibilidade de trabalhar a cidade. “Que eu quero para a minha cidade?”.
E a “Paixão” se confunde também com a religiosidade das pessoas.
Sim, só que é ecumênico. Você vê que tem católicos, evangélicos, tem umbandistas. É ecumênico o espetáculo. Tem gente de todas as linhas religiosas porque ela fala da religião em um sentido pouco maior, do amor mesmo, da possibilidade da religiosidade nos salvar através do amor, através do afeto, do respeito, da doação, de ver o outro e de ser o outro, de sentir o outro.
Então, para você, além de tudo isso, o teatro é também um trabalho braçal, não é? Como é a sua rotina teatral?
Totalmente braçal. Hoje, por exemplo, de manhã eu fiz um trabalho de teatro na Sanepar com gerentes, fiz uma vivência.
Você faz isso também?
Também. Uso o teatro como instrumento de mudança de cultura e mudança de relações interpessoais. Eu uso o teatro como ferramenta de transformar as relações. Eu dirijo uma ópera no Teatro Guaíra e hoje já teve um ensaio da “Bastien e Bastiene” do Mozart, e agora eu tenho “Helena” que a gente está ensaiando e daqui a pouco tem ensaio do “Buraco da Fechadura”, do Nelson Rodrigues. Essa é a minha vida. Eu sempre falo para o elenco que eu sempre preciso de uns dez minutos antes de começar a dirigi-los “para que eu possa chegar”, para estar presente de verdade no ensaio, para me descontaminar e tirar tudo que eu estava no outro processo e poder chegar mesmo e me entregar.
E além de todas essas atividades, você é também pai e mãe de dois adolescentes.
Pai e mãe. Eles são espetaculares, companheiros, me ajudam muito, me equilibram muito também. E disciplina, porque o teatro me envolve. Se eu não tivesse filhos eu estaria enlouquecido dentro do teatro, só o teatro e nada mais do que o teatro. Então eles me trazem um pouco de equilíbrio.
E eles vão caminhar para o teatro?
Elora gosta de piano e o Gabriel gosta da técnica. Palco ninguém gosta. Ela toca o piano para ela e o Gabriel é um ótimo operador de som, que me acompanha, me salva quando esqueço o texto, e tem uma delicadeza e precisão na operação de som, ele é muito talentoso. São meus amores. O teatro e os meus dois amores.
E neste mês de agosto promete muita atividade, não é? Duas estreias no mesmo mês.
Sim, dois espetáculos. Agosto é o mês do cachorro louco (risos). O “Buraco na Fechadura” tem estreia no dia 1º de agosto, reinaugurando o Portão Cultural, na sala Antonio Carlos Kraide. Eu adaptei alguns contos da obra “A vida como ela é”, do Nelson Rodrigues, e são seis atores. É uma leitura muito interessante, onde todos os atores fazem todos os personagens. É realmente uma leitura muito singular, muito original. Todos fazem todos. É um trabalho de ator muito interessante. São atores maravilhosos e eu me emociono a cada ensaio. Uma aula! Um presente, gente da mais alta qualidade.
E o “Helena”, sobre vida e obra da Helena Kolody, estreia dia 30 de agosto, no Teatro Sesi do Portão. Com a Claudete Pereira Jorge e a Helena Portella, que são duas excelentes atrizes de sensibilidade, de entrega e muito talento. Com elas eu não preciso fazer nada, só assisto. Às vezes até esqueço que estou dirigindo. A Claudete é de uma entrega impressionante porque ela se transforma, a gente esquece que é a Claudete, a sua amiga que está ali tomando café e conversando com você até que ela começa a fazer a peça. E a Helena está indo pelo mesmo caminho, com domínio de voz, do corpo, e ela tem carisma. Assim, com tudo isso que anda acontecendo na minha vida, então, está tudo muito bom, está tudo muito bem.