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Mussa José Assis morreu no dia 21 de fevereiro com apenas 69 anos, vitimado por um enfisema. Foi a maior vocação para o jornalismo que pintou nesta área do planeta. Ninguém fez em jornal impresso o que ele fez. Formou gerações de jornalistas.

Como acontece com os craques verdadeiros, seu talento manifestou-se cedo. Aos 21 foi levado a São Paulo para dirigir a sucursal do Última Hora, à época, o maior jornal em circulação no País, obra do lendário Samuel Weiner, que só contratava os melhores.

Em Curitiba, ele dirigiu durante décadas os jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná. Passou pela direção do Correio de Notícias, em sua segunda fase, em 1983.

Inquieto, estudioso, modernizou o  jornalismo nativo. Mudou a maneira de se escrever a notícia. Escoimou o ranço dos textos solenes, palavrosos, rebuscados. Trocou o nariz de cera pelo texto econômico, enxuto, direto, em matérias que passaram a ser apresentadas ao leitor de forma agradável. Mussa se preocupou sempre com a beleza gráfica do jornal.

Apaixonado pelo ofício, Mussa dedicava 12 horas diárias, no mínimo, ao jornalismo. Entre tantas tarefas, ensinava, com paciência de mestre-escola. Organizou manuais de redação antes que fossem adotados nos grandes jornais. De memória prodigiosa, foi a salvação das redações antes da internet e dos portais de informação.

Mas sua principal capacidade, talvez, tenha sido outra. Um faro privilegiado para a notícia e o talento para a análise e relação dos fatos. E sabia comunicar a todos os extratos sociais e culturais, tanto que dirigia dois jornais, de públicos diferentes.

Trabalhou na sucursal do jornal O Estado de São Paulo, onde publicou a única e antológica entrevista concedida até hoje por Dalton Trevisan.

Em seu currículo inscreve-se ainda o cargo de secretário da Comunicação Social do Paraná, mas essa função, ele dizia, não era bem a sua vocação.

Deixa a mulher, dona Guiomar, e os filhos Marcelo, Rodrigo, Fernanda, Érica, Cláudio e Chico Assis, uma família com os traços do caráter do Mussa, professor de bondade e de paciência, mesmo quando a vida e os outros lhe retribuíram como menos ele merecia.

O que se segue é uma entrevista feita por Rubens Campana, em 2008, para a Ideias, com fotos de Paola De Orte. Entrevista que, acima do circunstancial, bem expressa o pensamento desse jornalista a quem o Paraná e sua cultura muito devem.

 

Entrevista por Rubens Campana, publicada na edição nº 77 da revista Ideias:

Em outros tempos o jornalismo era visto quase como um sacerdócio, um ofício monástico de busca pela verdade. A pós-modernidade mudou o jornalismo, mas não todos os jornalistas. Mussa José Assis viu essa profissão a partir de todos os ângulos. Da juventude à experiência plena. Da investigação da reportagem às máquinas de impressão. Anos de liberdade e anos de chumbo. Talvez a única coisa que não mudou nesses anos todos é que Mussa continua tentando fazer todos os dias o melhor jornal possível.

 

Ideias: Como começou?

Mussa José Assis: Sempre fui jornalista, a vida toda. Comecei na minha infância, quando ajudava o dono de uma tipografia. Chamava-se Delmar Ramos, era um jogador de futebol. Mas ele tinha também uma tipografia, onde fazia notas fiscais, impressos, e onde inventou um jornalzinho semanal, marrom e imparcial. Eu era molecão, de uns 14 anos, e morava na frente da tipografia. Eu ia lá ajudar a revisar texto e até a compor tipograficamente, letra por letra. Quando vim para Curitiba para fazer o científico no Colégio Estadual do Paraná, a primeira coisa que fiz foi um jornalzinho do Centro Estudantil do Colégio Estadual do Paraná, junto com o Nilton Finzetto, filho do Aluízio Finzetto, que foi o precursor da televisão e da rádio no Paraná. Eu não tinha terminado o científico ainda e já arrumei emprego de revisor em um jornal, sem nem ter 18 anos ainda. Fiz 18 anos em abril de 1961 e em junho eu já era jornalista profissional. Em julho peguei o meu registro de jornalista, e aí nunca mais deixei.

 

Como foi a experiência em São Paulo no Última Hora?

No final de 1961 e durante 1962 eu fiquei no jornal Última Hora do Paraná. Aqui eu era repórter, mas também acumulava a secretaria do jornal. No começo de 1963 o rapaz que era o secretário de redação em São Paulo ia entrar de férias. E no Última Hora acontecia uma coisa interessante, todo mundo que saía de férias nunca voltava para o mesmo lugar. Eu toquei o jornal por um mês em São Paulo, cobrindo as férias do outro secretário, e continuei lá, e fui continuando. Com exatamente 20 anos de idade eu já era secretário de redação do Última Hora de São Paulo. Em 1964 veio o golpe, que me pegou na secretaria do jornal. A redação foi invadida por soldados da polícia militar de São Paulo, que interromperam a edição que já tinha ido em parte para a rua. A manchete anunciava que o governador de São Paulo, Ademar de Barros, estava aderindo ao golpe. Era madrugada de primeiro de abril, um meio de semana. Fui preso no primeiro domingo depois do golpe, me levaram para o DOPS. Fiquei preso 36 horas, e então houve interferência, pois a notícia da minha prisão chegou a Curitiba. O governador Ney Braga pessoalmente pediu para me soltar, pois eu havia sido repórter do Palácio do Iguaçu, com ele governador. Fiquei na redação até o final de 64, mas o Última Hora passou por uma crise muito grande e foi fechado em vários locais. Em 65 voltei para Curitiba, para a chefia de redação d’O Estado do Paraná, onde fiquei durante um período muito grande, de 18 anos.

 

E o Correio de Notícias?

Eu tive uma briga interna e saí d’O Estado do Paraná e fui reabrir o Correio de Notícias, com um time grande, caracterizado em grande parte por ser formado por todos os desempregados e marginalizados da cidade. Ninguém que foi trabalhar lá tinha emprego. Foi uma época excelente! O Luiz Geraldo Mazza estava lá, o Fábio Campana estava lá, e tudo o que é louco da praça estava lá. Todo maluco que não conseguia emprego em lugar nenhum. Fizemos um jornal revolucionário. Marcou presença. Fiquei lá por três anos e meio. Só saí do Correio de Notícias quando ele foi transferido de grupo. Então voltei para O Estado do Paraná, e fiquei até 90, quando fui ser secretário de Comunicação do governo do Álvaro Dias. Fiquei durante um ano no governo do Álvaro e voltei para O Estado do Paraná, onde estou até agora.

 

Como é fazer jornalismo nos períodos adversos, de pouca liberdade ou de enfrentamento com o poder?

Eu peguei todas as fases possíveis, da democracia plena do Jânio até depois da revolução. Existem momentos em que o profissional tem de se adaptar e resistir, com certo jogo de cintura, porque mesmo sob censura é preciso tentar fazer o melhor jornal possível. Por mais que houvesse censura prévia, conseguiu-se manter a imprensa funcionando. Tanto que não houve a repressão que se viu na Argentina, por exemplo. Sem falar em Espanha e Portugal, onde foi ainda pior. Quando acabou a censura em Portugal nenhum português sabia mais fazer jornal, porque se passaram gerações sem imprensa livre. Eu trabalhei antes da censura, atravessei a censura e ainda estou aqui, em uma fase democrática.

 

Durante esse tempo, o que mais mudou no jornalismo?

Tudo. A evolução que ocorreu é muito grande, principalmente nos últimos 20 anos. Pensando bem, tudo foi feito da mesma forma desde 1400, com Gutenberg, até os anos 60, pois ainda se fazia imprensa com os tipos móveis de Gutenberg. A partir de 60 houve uma explosão. O jornal deixou de ser feito em chumbo. Hoje se faz jornalismo com a internet, telefone celular e a fotografia digital. Aí no meio disso tudo você pega um camelo como eu, que começou escrevendo em máquina Olivetti, com uma fita de algodão que enroscava, e que depois passou para a máquina de escrever elétrica. No meio ainda veio um computador que não era bem computador, era só uma máquina que compunha a partir de uma fita perfurada. Depois começou o computador de verdade. Em seguida fui obrigado a aprender a operar na internet, e de repente aparece o celular, o laptop e a foto digital. Um profissional velho tem que aprender tudo isso. Posso não saber usar um computador como um garoto novo sabe, mas sei usar os programas que um jornalista precisa para mandar uma matéria para frente.

 

Mas em certo período você era capaz de fazer tudo, da reportagem até a impressão, não?

Eu aprendi tudo. Aprendi porque peguei uma época muito boa, tive muita sorte e muita gente me ajudando. No Última Hora, com 20 anos de idade, era secretário de redação. Jornalista nessa época não podia entrar na oficina, era proibido. Só tinha um elemento que podia entrar na oficina, era o secretário, que também fazia a ponte entre a oficina e a redação. Então eu frequentava a oficina. E por que não aprender a operar linotipo? Então achei um cara que me ensinou. O sujeito tinha vindo da Turquia, e era um bom tipista, que me ensinou a trabalhar com linotipia. Aí passei a frequentar a clicheria, que é a gravação da fotografia em zinco. Ajudava a preparar chapas. Eu tinha 20 anos de idade, estava solteiro e sozinho em São Paulo, trabalhando em tempo integral. Aprendi muito com a curiosidade. Eu ia ver a máquina funcionar e batia papo com o impressor, e aí ele me deixava apertar os botões. Acabou que eu estive presente em toda compra de maquinário n’O Estado do Paraná. Fiz o desenho dessa última rotativa inteira, sozinho. Muitas vezes operei máquinas na ausência de alguém.

 

Existiu uma idade de ouro do jornalismo nativo?

Houve uma fase que eu não digo que era de ouro, mas era de romantismo. Se com esse romantismo era melhor ou pior do que agora, não sei. O jornalista era jornalista em tempo integral, todos apaixonados por jornal e por cerveja. A gente saía da redação e ia pro boteco, muitas vezes amanhecia lá. E quem teve formação escolar na época pegou uma escola bem melhor do que a de hoje, pois quem fizesse ginásio naquela época tinha um bom português e uma formação boa. Os cursos universitários também eram melhores do que os de agora. Eu sou totalmente favorável à faculdade de jornalismo, é preciso existir essa formação acadêmica. Mas o jornalismo exige mesmo uma passagem por redação, televisão ou rádio, que é onde se aprende.

 

O que é essencial para um jornalista?

Tudo começa no que há de mais elementar, que é ter o domínio da língua. Todo jornalista que quiser ser bom precisa antes dominar o português, pois é o instrumento de trabalho dele. Escrever bem e sem erros. Segundo, tem que ler muito. Só se aprende a escrever lendo, e se o jornalista não ler não vai adquirir estilo. Fora aquilo são os pressupostos de tudo: ter ética, ser verdadeiro e um pouco corajoso.

 

E o episódio da única entrevista com Dalton Trevisan?

Dalton Trevisan nunca deu entrevista. Eu era muito amigo do Dalton, e eu digo que era apenas porque faz tempo que não o vejo. Tínhamos amigos em comum e passávamos noites conversando na marquise da Boca Maldita ou em um ponto qualquer da Rua XV. Aramis Millarch, Mauri Furtado, Sílvio Bach, ficávamos todos batendo papo. Até que um dia O Estado de São Paulo estava prestes a relançar o seu Suplemento de Cultura. Eu trabalhava no Estadão e me pedem uma entrevista com o já famoso Dalton Trevisan. Fazia sucesso, mas era inacessível. Encontrei-me com o Dalton e disse: “amanhã vou te entrevistar lá no seu escritório”. E o Dalton: “Quê?! Não vou dar entrevista!”. Eu: “Pô Dalton! Eu preciso, eles querem que eu faça uma entrevista com você e querem um conto seu pra publicar”. Dalton: “O conto eu forneço, mas a entrevista eu não dou”. No dia seguinte eu fui ao escritório dele, que ficava na fábrica de vidro da família, na Rua Emiliano Perneta. Sentei e falei: “Dalton, dá uma entrevista”. E ele: “Não dou entrevista, Mussa. Vou contar o que da minha vida? Que eu tentei ser saltador de vara no Colégio Estadual?”. E assim, aos poucos, ele foi contando a história dele, e dizendo frases: “O autor não é importante, o importante é a obra”. Eu não estava anotando, já que ele não falaria mais, e gravador naquela época pesava uns cinco quilos. Fui memorizando, correndo o risco, mas escrevi a matéria. Encontrei com ele e disse: “Dalton, escrevi sobre você”. E o Dalton: “Isso é traição!”. Eu: “Não. Escrevi mesmo”. Ele: “Então eu quero ler”. Mandei uma cópia, que ele devolveu depois de uns três dias, cheia de correções. Acontece que o original já estava em São Paulo, e tudo aquilo que ele pediu para consertar eu não consertei. Levei o cheque d’O Estado de São Paulo para ele, que era o pagamento dos direitos autorais do conto. Ele assinou o recibo. Dessa assinatura dele, no recibo, saiu a assinatura que o jornal publicou. Daí ele ficou louco! Dizia: “A minha assinatura aqui! Como que você conseguiu minha assinatura?” Mas no fim ele gostou da matéria, que foi primeira página do Suplemento Literário. Eu sei que até hoje ele guarda o xerox dessa página, e para todo mundo que pede para entrevistá-lo ele puxa uma cópia e diz: “Tá tudo aqui”.

 

Como é fazer jornal hoje?

Tudo continua igual, e o negócio ainda é tentar fazer o jornal mais verdadeiro possível. Não forçar a barra. Tudo o que aconteceu você dá, e ponto final. Já existe uma pressão enorme na relação entre a quantidade de matérias e o pouco espaço. Já é obrigado a selecionar. Mas você não pode selecionar jogando fora o que é bom. Hoje toco o jornal com extrema independência, extremo jornalismo. Jornalismo até a última consequência. E tomara que continue sempre assim. Sem assumir posições que radicalizem ou impeçam de dar notícia, pois ninguém em jornal tem o direito de sonegar nada.




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