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Renan Machado

Não raro “superação” orbita na esfera do lugar-comum. É uma das palavras favoritas dos literatos da autoajuda, empregada, tantas vezes, levianamente. Mas são casos e casos. Osny Tavares, jornalista, retratou, em A quatro punhos, livro lançado pela editora ComPactos, um exemplo de real superação. Palavra levada ao pé da letra. Ou ao pé dos ringues. É a história de Macaris do Livramento e Rosilete dos Santos, casal morador de São José dos Pinhais e com uma paixão em comum: o boxe.

Bem se sabe que no país do futebol muitos esportes ficam em segundo plano. Incentivos, patrocinadores e investimentos rareiam. O boxe amador no Brasil, muito diferente do esporte cheio de glamour pintado em Hollywood, faz de seus praticantes verdadeiros heróis e heroínas. Sem demagogia ou pieguice. Afinal, é difícil nadar contra a corrente.

Em A quatro punhos – A história real de Macaris e Rosilete, um casal de boxeadores com um sonho em comum, Osny Tavares, além de contar a história de vida do casal, relata a rotina diária e a forma de organização das competições. Macaris do Livramento foi um dos precursores do boxe no Paraná. Como profissional, fez 110 lutas entre 1992 e 2006, consagrando-se campeão brasileiro e mundial pela Comissão Mundial de Pugilismo. Costumava fazer lutas pelo Estado afora com seu “ringue itinerante”. E foi em uma dessas apresentações que conheceu Rosilete dos Santos, na cidade de Castro, que se tornaria sua esposa e atleta que viria a treinar. Rosilete sagrou-se campeã pela maior entidade do boxe feminino mundial. Tal proeza foi alcançada por, além da atleta, apenas cinco pugilistas na história.

Em entrevista à revista Ideias, Osny Tavares falou sobre a concepção de A quatro punhos, lançado no dia 21 de março no Museu Oscar Niemeyer, sobre a experiência do livro-reportagem e seu sentimento pessoal e profissional em relação à obra.

Ideias: De onde surgiu a ideia que originou A quatro punhos?

Osny Tavares: Já fazia algum tempo que eu queria escrever uma grande reportagem ou um livro mesmo. E eu estava em busca de um tema que fosse afastado da minha zona de conforto, ou seja, tanto da realidade que eu enfrento na Gazeta do Povo, jornal no qual trabalho, quanto de meus gostos e preferências pessoais. Eu não queria escrever sobre cinema ou literatura, temáticas que eu gosto, mas já fazem parte do cotidiano. No livro eu queria uma experiência nova. Uma história orbitando em torno de algo mais urbano, vivo e cru, quase marginal, para contrapor exatamente essa questão de problemáticas nobres e aura cult. Eu fui em direção ao inexplorado, no caso o boxe, a fim de jogar uma luz sobre isso. A própria literatura moderna nos ensinou a não desprezar personagens afastados do glamour, pois são tão relevantes quanto os que desempenham ocupações nobres, por assim dizer.

Grandes reportagens, como é o caso de A quatro punhos, implicam em uma grande carga emocional. Como foi trabalhar com isso intensamente?

Ao longo da minha trajetória como jornalista já me debrucei muito sobre histórias das pessoas no cotidiano, como elas comportam-se em determinado ambiente ou buscam criar algum tipo de rede. O que eu nunca tinha feito antes do livro é me aprofundar na história de alguém. O grande desafio que se pretende superar é conseguir uma leitura em 360 graus do contexto. A quatro punhos foi escrito ao longo de um ano, a partir de mais de 100 horas de entrevista com o casal e com outras 30 pessoas. Acompanhei também Macaris e Rosilete durante três meses, do início de uma série de treinamentos até uma defesa de título de Rosilete, em junho de 2012. Eu tive de tornar-me o melhor amigo do casal, primeiramente para compreendê-los como personagens, mas também para criar com eles um laço de confiança, de forma que pudessem me confidenciar coisas que nunca seriam ditas a um jornalista que fizesse uma entrevista rápida. E tudo isso tem um peso grande.

Quanto a seu objetivo em A quatro punhos de atingir um extremo “urbano e cru”, acha que a obra contempla essa pretensão?

Com certeza. O boxe, por si só, é um esporte muito cru. Atinge seu glamour dentro do universo do show business e Hollywood, onde fatura milhões. Mas na essência, das cordas para dentro, é um esporte muito cru, remetendo inclusive ao nosso primitivismo como seres humanos. O boxe é literal, sem meio termo. O objetivo é vencer seu adversário e isso implica retirar dele, naquele momento, a humanidade que lhe pertence. Deixá-lo no chão, sem sentidos. Isso nenhum outro esporte tem. Esportes coletivos trabalham simbologias, como colocar a bola no gol ou na cesta. Por outro lado, o boxe, no Brasil, é um esporte pouco reconhecido. Seus praticantes lutam literal e metaforicamente. Dentro e fora dos ringues. É uma superação dia a dia.

Depois de estrear com A quatro punhos, um livro-reportagem, pensa em aventurar-se pelas veredas da literatura ficcional?

Faz parte das minhas conjecturas. Gosto muito da literatura ficcional. Fui educado intelectualmente nesse meio. Por outro lado, gosto muito de jornalismo. Acredito que a literatura de não-ficção cresce muito no Brasil. Também sinto que mesclar a investigação do jornalismo e o apuro estético da ficção foi uma coisa que me satisfez bastante no processo de A quatro punhos e eu gostaria de continuar nessa linha.


Tags: Macaris do Livramento; Rosilete dos Santos; Osny Tavares; Renan Machado; Revista Ideias;


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