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Uma das musas do cinema mundial, cultuada como deusa da beleza, Angelina Jolie provocou enorme choque, dia 14 de maio, quando o mundo ficou sabendo que ela havia retirado os dois seios. Ganhou mais manchetes nos jornais e chamadas dos telejornais do que as centenas de mortes daquele dia registradas em explosões no Oriente e a guerra civil da Síria.

Haveria mil e uma explicações para o trauma universal, partilhado em primeiro lugar com Brad Pitt e, em seguida, escancarado na sua crueza aos seguidores dessa espécie de culto mundialmente disseminado à atriz. A mais imediata delas é a de que nos seios repousa o arcabouço da feminilidade, e são eles foco de contemplações não apenasmente sensuais, mas sempre indissociáveis da identificação da fêmea. Há também o olhar sobre as mamas como o primeiro canal garantidor da vida do recém-nascido, como se vê nas telas de madonas generosas com seus bambini a reproduzirem algum tipo de projeção da Virgem Mãe.

Um dos mais notáveis especialistas brasileiros em câncer de mama, mastologista curitibano, conferencista internacional da especialidade, o médico e professor universitário Cícero de Andrade Urban acha que Angelina fez o certo, mas observa, no entanto, que “não é para todas as pacientes, apenas para casos bastante específicos porque as cirurgias redutoras de risco têm riscos importantes também”.

Cícero Urban, 41 anos, não é apenas um cirurgião especialista numa área médica muito requisitada, a do câncer de mama que, este ano, deve atingir pelo menos 52 mil brasileiras. É um profissional respeitado na área, especialmente reputado pelas habilidades como cirurgião em oncoplástica. A tal ponto que recebe, anualmente, estagiários na clínica em que atua em Curitiba. Cirurgiões norte-americanos são os mais frequentes estagiários de Cícero.

Poderia dar muitos exemplos para ressaltar o papel que Cícero Urban vai assumindo mundialmente como conferencista em sua especialidade. Escolho um: em 2011 ele foi o único brasileiro a falar no Consenso de Saint Gallen, na Suíça, para um auditório de cinco mil especialistas em doenças da mama do mundo inteiro que lá se reuniram. Foi uma ampla e substancial conferência, com todos os desdobramentos imagináveis para uma área tão sensível.

No chamado Consenso de Saint Gallen, de dois em dois anos, os especialistas em doenças da mama reúnem-se para apontar caminhos para diagnóstico e tratamento de câncer de mama.

Sem me alongar sobre esse tipo humano muito peculiar, casado com a também médica – “ela me supera, é mais inteligente”, diz – Linei, radiologista, o casal tem dois filhos: Lara, 8 anos, João Paulo, 2 anos. Registro ainda: anualmente o périplo de conferências de Cícero tem compreendido centros médicos de grande porte, como Houston, San Antonio, Estrasburgo, Itália, Turquia.

E não menos importante: Cícero, homem de sólida formação católica, é Bioeticista formado na Sacre Cuore, da Itália. Dedica parte de seu talento ao Instituto Ciência e Fé, de que é vice-presidente.

A seguir, a entrevista completa que Cícero concedeu para a Ideias:

 

Ideias: De que maneira podem ser classificados os tipos de câncer de mama?

Cícero Urban: O câncer de mama pode ser classificado, segundo a causa, em: familiar, esporádico e hereditário. O esporádico, que representa a grande maioria dos casos (cerca de 90%), ocorre em pacientes sem história familiar de câncer de mama. Nestes casos, o componente genético existe, como em todos os cânceres, mas as mutações são desconhecidas ainda e podem ser adquiridas, não hereditárias.

O câncer de mama familiar é aquele que surge em pacientes cujos familiares, sobretudo os de primeiro grau (pais e irmãos), também foram acometidos, mas não foi detectado ou não foi pesquisada nenhuma mutação genética conhecida.

E, por último, o caso da Angelina Jolie, que é o do câncer de mama hereditário, em que a paciente é portadora de uma mutação que predispõe ao câncer de mama (e muitas vezes também a outros tumores como o de ovário). No câncer de mama as mutações mais frequentes ocorrem nos genes BRCA1 e BRCA2. Eles representam uma minoria dos casos de câncer de mama (talvez menos de 2%, mas os números reais são desconhecidos).

E como são os testes nestes casos?

Os testes genéticos têm indicação muito precisa e restrita a casos onde esta suspeita de câncer hereditário seja alta. Um teste genético negativo não exclui a possibilidade de câncer no futuro, pois a maioria das mutações ainda é desconhecida. Pesquisamos apenas mutações conhecidas. Do outro lado, um teste genético positivo nem sempre significa que a paciente terá um câncer e também não sabemos quando este poderá surgir na vida da paciente. Um teste positivo significa que a paciente pode ter um risco que varia de 50 até mais de 80% de risco de ter câncer durante toda a vida.

O caso da Angelina é frequente na população mundial?

Ela é portadora de mutação em BRCA1, o que muitas vezes leva a cânceres de mama agressivos, e que apresentam dificuldade de detecção nos exames de imagem. Portanto, a decisão dela foi bastante adequada e proporcional ao quadro genético apresentado. Mas não é para todas as pacientes, apenas para casos bastante específicos porque as cirurgias redutoras de risco têm riscos importantes também e que devem ser considerados na decisão da paciente.

Nesta situação, existe preocupação e componentes estéticos?

Primeiro, é preciso ficar claro de que não se trata de cirurgia estética. Algumas pessoas acham que basta retirar a mama e substituir por uma prótese. Mas é uma cirurgia de grande porte e necessita de equipe treinada e com experiência. Além disso, estas pacientes necessitam de acompanhamento psicológico e também de um geneticista.

Por que a oncoplástica é importante? Deve ser olhada como atendimento a uma necessidade secundária da mulher (questão estética e de autoestima?) ou é vital para as pacientes que sofreram mastectomia?

A oncoplástica é a associação de técnicas oncológicas e de cirurgia plástica no tratamento do câncer de mama. Este conceito surgiu na Europa na década de 90 exatamente porque estamos vivendo a era do tratamento conservador (buscamos o máximo da segurança com o mínimo de mutilação), individualizado e do diagnóstico precoce. As chances de cura hoje são muito maiores do que há 20 anos. É natural então que nos preocupemos também com a qualidade de vida das pacientes. E a qualidade de vida está diretamente relacionada aos resultados estéticos, à redução das mutilações e da assimetria que podem advir do tratamento cirúrgico e radioterápico. Claro que não se trata de cirurgia estética ou de dar prioridade à estética em detrimento da segurança oncológica.

Você se especializou em cirurgia oncoplástica, tem projeção internacional. Mas deixou, por acaso, de atuar e se interessar pelo câncer de mama?

Absolutamente. Não se trata de deixar de se interessar ou de tratar o câncer de mama. Muito pelo contrário. O que buscamos é uma individualização cada vez maior do tratamento cirúrgico, que associe o melhor resultado oncológico a um resultado estético satisfatório. É uma evolução natural da cirurgia mamária e que hoje tem crescido no mundo todo.

Sua clientela e os que o procuram, mundo afora, o procuram como oncologista ou mais como o mastologista especializado em oncoplástica?

Hoje sou procurado como mastologista que faz reconstrução mamária. Tanto por pacientes com câncer e que nos buscam para tratarmos o câncer e reconstruirmos já no mesmo tempo cirúrgico, quanto por pacientes que consultam na nossa Unidade de Mama, onde faço reconstrução mamária para os médicos do nosso grupo. Também tratamos doenças benignas da mama.

É possível estimar o número de casos de câncer de mama anualmente registrado no País?

Em torno de 52.000 casos são esperados para este ano. Infelizmente, a maioria destas pacientes ainda não é submetida à reconstrução mamária. O que para nós é uma pena, pois a reconstrução é parte integrante do tratamento e um direito da paciente. Estamos tentando mudar esta realidade. Criarmos leis apenas não basta, apesar disto ser muito importante, pois é uma questão de cidadania.

Precisamos organizar os serviços que atendem as pacientes com câncer de mama dentro do modelo de unidades multidisciplinares, onde a paciente recebe tratamento integral por profissionais exclusivamente dedicados ao tratamento desta doença. Este modelo funciona muito bem na Europa e também em alguns centros americanos. No Brasil temos também alguns centros de excelência, mas ainda falta muito para melhorarmos a realidade do câncer de mama no nosso meio como um todo.

Quais os fatores que, comprovadamente, influenciam mais no surgimento do câncer de mama?

Existem fatores genéticos e ambientais. Mas o câncer de mama não é uma única doença. É um conjunto de doenças, algumas delas menos agressivas e outras bastante agressivas. Os fatores que levam ao seu surgimento são vários. Não podemos implicar um único como o mais importante.

A maioria das pacientes não tem história familiar, porém se existe este fator, o risco pode ser alto para desenvolver o câncer de mama. Fatores de risco bem conhecidos e clássicos são: menarca precoce, menopausa tardia, não ter filhos ou ter filhos tardiamente, nível socioeconômico elevado, ser caucasiano, uso de terapia de reposição hormonal, entre outros. São fatores de risco, mas não são determinantes, ou seja, uma paciente pode ter todos eles e não vir a desenvolver a doença.

O fato é que quanto mais nos aprofundamos na busca das causas e de como o câncer de mama se desenvolve, mais nos damos conta de quão complexa é esta doença. Hoje o fator preponderante e talvez a chave para chegarmos a uma cura definitiva é a melhor compreensão das células-tronco tumorais.

Faça uma abordagem sobre o Consenso de Saint Gallen e sobre suas futuras participações no evento. Dimensione o Consenso e sua importância para atualização dos tratamentos e indicações de medicações na área de doenças da mama.

O Consenso de Saint Gallen dita a conduta no tratamento do câncer de mama inicial em todo o mundo. São mais de 4.000 participantes de todo o mundo, neste evento que ocorre a cada 2 anos nesta cidade maravilhosa na Suíça. Eu fui até hoje o único brasileiro a ser palestrante, em 2011. Foi, talvez, um dos momentos mais importantes de minha carreira profissional.

Você lançará seu novo livro em junho, sobre oncoplástica, editado na Itália em inglês. Fale de seu partner na obra. Com esses livros você repassa conhecimento de técnicas cirúrgicas. Eles respondem a demandas médicas?

Esse livro foi editado pela maior editora de livros técnicos no mundo que é a Springer. O lançamento será em Milão, no Instituto Europeu de Oncologia, o mais importante centro europeu de tratamento e pesquisa do câncer de mama. Foi um trabalho duro, de cerca de 2 anos e meio, junto com o Dr. Mário Rietjens, que é o diretor da Divisão de Cirurgia Plástica e Reconstrutora deste centro. Ele conta com a colaboração de alguns dos mais importantes profissionais dedicados ao tratamento do câncer de mama. Acreditamos que com ele poderemos contribuir para a difusão das técnicas oncoplásticas em diversos países e realidades.

Qual sua agenda de conferências e congressos para este ano?

Este ano tenho conferências na Turquia, na França, na Itália e nos Estados Unidos. No Brasil tenho diversas participações em vários estados, não sei lhe dizer quantas. Minha família tem me cobrado uma redução nesta agenda.

Você mantém o programa de acolhimento de estagiários em sua clínica. Aborde o assunto, faça uma avaliação dos trabalhos realizados com os estagiários.

Temos recebido estagiários de diversas regiões do Brasil, da América do Sul, dos Estados Unidos e do Canadá. Temos um time muito integrado de profissionais e o mérito não é meu, mas de todos no nosso grupo. Apenas o trabalho em equipe pode trazer um alto nível de tratamento para uma doença tão complexa como o câncer de mama. A troca de experiências com aqueles que nos procuram beneficia a todos nós. Nós brasileiros somos muito receptivos, alegres, mas também sabemos trabalhar sério e com qualidade. E é isto também que procuramos passar aos estrangeiros que chegam até nós.

Por último, mas não menos importante: como é sua vida acadêmica, na Universidade Positivo, sua presença no meio universitário, sua mensagem de Bioética?

Sou professor de Bioética e de Metodologia Científica no curso de Medicina e na Pós-Graduação da Universidade Positivo. Considero como missão, não apenas melhorar o tratamento do câncer de mama, mas humanizar o médico. E esta humanização passa por uma transformação dentro da formação médica, sobretudo em invertermos o interesse técnico, que hoje virou prioridade, e voltarmos ao interesse genuíno pelo paciente. Afinal a medicina não é dos médicos, da indústria, do Estado, das seguradoras ou dos hospitais. Ela é do paciente, daquele que sofre. Ele é a razão de nossa existência. Todos nós, que um dia passamos pela experiência de sermos pacientes, sabemos o quanto é importante termos junto de nós profissionais não apenas qualificados tecnicamente, mas humanos e disponíveis.


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