Gastronomia
03.09.2015
03.09.2015
03.09.2015
03.09.2015
03.09.2015
05.03.13
Terroir desconhecido
por Jussara Voss

Fui recebida pela chef, que ostentava uma estrela no peito. “É a bandeira do Acre”, disse-me sorridente. São assim os acreanos, ou acrianos, pela nova reforma ortográfica, que só entrará em vigor em 2016, o prazo foi ampliado, para alívio daqueles que põem dúvidas na mudança das regras. Voltando aos acrianos, eles sabem recepcionar o visitante. “Acolhemos com o coração quem chega ao Estado”, conta Geni Abrahão, a proprietária do AFA Bistrô d’Amazônia, e eu logo complemento: “E com o estômago”, principalmente se a família que o recepcionar tenha origem libanesa, reconhecidos por serem bons anfitriões e oferecerem mesa farta sempre, aliás, são a maioria lá, ao lado dos nordestinos. Não podia imaginar. Mas eu me refiro ao clã Abrahão – a família instalada neste que é o 27° Estado brasileiro, um representante nacional de tradição guerreira.

Baixaria
Geni Abrahão: devoção ao bem servir
Sueli Cardoso da Silva: estrela no peito e paixão pela cozinha
Ceviche verde: um clássico dos vizinhos peruanos
Limpe o peixe e corte, separe os outros ingredientes
Marine no leite de tigre
Misture com o pesto

Não, ainda não coloquei os pés neste lugar escondido na bacia amazônica, região Norte, entre os estados do Amazonas e de Rondônia e os países da Bolívia e do Peru, terra de Chico Mendes e Marina Silva. Infelizmente, o calor me assustou, e aquela acomodação, que às vezes nos impede de atos mais ousados, como atravessar o País, ajudou, não fui. Mas está tudo planejado para os próximos meses chuvosos e de temperatura amena, que me prometeram, existem. Anseio conhecer o Acre no final deste ano em que vivemos. Bons motivos não me faltam. De passagem pelas nossas terras, elas me ensinaram muita coisa, uma delas eu divido com os leitores, um ceviche verde. Égua, como costumam exclamar, com sotaque carregado e peculiar, e que eu traduzo livremente: uma maravilha.

E que faz o belo povo de traços indígenas, tez cor de imbuia e olhos amendoados tão distante das terras do Sul? Comem muito bem, por exemplo, e se dermos um dedo de prosa o ouvinte escutará nomes, para nós, estranhíssimos, porém, com a garantia de sabores e sensações inesquecíveis. Já comeu jambu, por exemplo? Picadinhas na língua e amortecimento são as primeiras sensações, não tem como esquecer. Já tomou tacacá, a sopa servida em cuias? Já comeu pato-no-tucupi, que é o sumo fermentado da mandioca ou manipueira, que nós chamamos de aipim e pode ser também macaxeira, fervido com alho, alfavaca, pimenta-de-cheiro e chicória ou coentro? E nem vou falar do chá do Santo Daime, capaz de proporcionar viagens alucinógenas, causadas pelas variadas substâncias que aguçam e abrem as portas do inconsciente, permitindo descobertas e revelações. O Acre é a terra do Santo Daime. Senhor! É outro país, outro mundo.

Quem vai até lá se apaixona. Testemunham os fãs. A diversidade cultural é impactante, confessam.Chefs do Peru ou brasileiros, como Ana Luiza Trajano, do Brasil a Gosto, e Eva dos Santos, do Bistrô do Victor, entre outros, que contem; os estrangeiros, então, nem se fala, quando conhecem não acreditam na riqueza dos ingredientes. Por aqui, eu pelo menos tenho vontade de ficar amiga da Dora, a dona da barraca da Amazônia na feirinha do Batel, que consegue alguns produtos de lá, isso eu desejo, para ver se consigo aplacar o gostinho que ficou de querer repetir de tudo um pouco.

Esse negócio de falar desse lugar desconhecido está me colocando em alerta, sei que será fácil perder-me entre sabores de frutas exóticas, massudas e leitosas para variados fins, vai que eu queira demorar-me nesse passeio, afinal, sou palmeira real no nome, e sei que vou me dar bem em terras hospitaleiras, de boas comidas e bons costumes. Devagar com o andor, reluto, lá tudo pode terminar em baixaria. Calma. É comida que promete curar bebedeira, acabar com a ressaca, ou matar a fome depois da noitada, ou ainda apenas saciar o apetite. O prato com esse nome leva cuscuz, carne moída bem temperada, ovo frito e cheiro-verde ou coentro em cima. É tradição acriana.

Minha amiga é proprietária do AFA – iniciais do nome do patriarca da família – o bistrô pequeno ao lado do hotel e tem também um espaço para eventos, o AFA Jardins, que abriga 400 pessoas. A chef do local é apaixonada pela cozinha, não poderia ser diferente, cresceu provando as comidas preparadas pela família Abrahão. Sueli Cardoso da Silva confessa ser a paixão da sua vida, responsável pelas mais de 14 horas por dia ali. Atenta e esforçada, não deixa de pesquisar, inventar e aprender em cursos e viagens.

Eu estou pensando em poder descascar castanha-do-pará, conhecer os enormes rios e peixes de lá, acompanhar a produção artesanal da farinha de Cruzeiro, visitar um engenho, comer paca e rabada no tucupi, tucumã, pimenta-de-cheiro, caldeirada de pirarucu, tambaqui, lombo de tartaruga, que são criadas em cativeiros legalizados, muito açaí, caiçuma, cajá, tamarindo, jenipapo, cupuaçu, buriti, mundumbim, gramixó, jaca verde, carambolas e aproveitar o legado que a cultura sírio-libanesa instituiu na região.

Formiga? Lá não é novidade apresentada por cozinheiros famosos, como Alex Atala e René Redzepi, é servida até para as crianças, “frita é uma delícia”, me contaram. Ouvi dizer que o caroço da fruta-pão cozido com sal é melhor do que castanha portuguesa, se for verdade, sou capaz de me mudar para lá. Agora me conte se você não ficou com vontade de conhecer o Acre.

 

Ceviche verde

A receita você pode acompanhar no passo a passo das fotos e é fácil, basta ter um peixe muito fresco e sem fibra, como a tilápia ou o robalo. O corte é muito importante, ensina a chef, limpe bem, se preciso for. Corte em tirinhas, até pode ser em cubos, como os peruanos fazem, daí o tempo no chamado leite de tigre, a mistura de limão e sal que vai cozinhar o peixe, é menor. Quanto menor os pedaços de peixe menos tempo de molho no leite de tigre. Se o clima estiver muito quente, deixe o peixe na geladeira durante o período da marinada com o limão. No verão curitibano, se não for naqueles poucos dias de calor que temos, pode ficar fora mesmo. Para a porção de peixe da foto, que deve saciar uma pessoa, use o suco de ½ limão e uma colher de chá de sal. Deixe descansar por 30 minutos.

Alguns minutos antes de finalizar o tempo da marinada faça o pesto, com ½ maço de coentro, ou salsinha se preferir, ½ dente de alho, um pedaço pequeno de gengibre e metade do leite de tigre preparado. Bata no liquidificador. Antes de servir misture pimenta-dedo-de-moça picada a gosto, um fio de azeite de oliva e cebola roxa por cima. Rápido, muito fácil e gostoso.

 

AFA Bistrô d’Amazônia

Rua Franco Ribeiro, 109 – Centro

Rio Branco – Acre

(68) 3224-1396

Quem vai até lá se apaixona. Testemunham os fãs. A diversidade cultural é impactante, confessam.


Tags: AFA Bistrô d’Amazônia; Acre; ceviche verde; baixaria;



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