Gastronomia
03.09.2015
03.09.2015
03.09.2015
03.09.2015
03.09.2015
10.10.13
Venha à vontade
por Jussara Voss

Uma visita ao bar do Pachá

Les Paxá: Inspiração nos bons tempos para criar a casa. (Fotos: Romildo Voss jr.)
Proteção: Santos, santas e até a bênção de um rabino (Fotos: Romildo Voss Jr.)
Zico Garcez: A cozinha e alma do lugar (Fotos: Romildo Voss Jr.)

O Pachá é um bar, mas não abre aos sábados à noite, se nunca foi, o leitor pode estranhar. Então, digo que para entender a filosofia do lugar é preciso conhecer um pouco mais o seu dono. Vou contar.

Eu não costumo frequentar bares, mas é o bar do Zico. Quer dizer, o nome do lugar nem é esse, como eu disse, é Pachá – uma homenagem à equipe de gincana Les Paxá, com “x”, dos anos 70 do Curitibano, que fez história. Sem Google, a competição exigia muita criatividade, impossível imaginar o certame. As disputas entre as equipes eram acirradas, mas tudo acabava em “paz e amor” nas festas do clube chamadas de “Venha à vontade” – que, pasme, existem até hoje – e as comemorações eram memoráveis, até com namoros entre integrantes de equipes concorrentes, alguns que acabaram em casamento; briga mesmo era com a turma da Saldanha, mas isso é outro assunto, naquela seara tudo era regado a muito charme. Aliás, charme que Zico carregava com galhardia. Usando a linguagem daquela década, um galã. Outros adjetivos também lhe caem bem. Bon vivant e boa gente, sabe cativar e conhece meio mundo. A criação de um blog por um dos integrantes da antiga turma foi a inspiração dele para o bar, que, na verdade, é mais um restaurante bem informal; como já existia outro estabelecimento com o mesmo nome, ele deu um jeitinho, bem ao seu estilo, e pronto, nascia o Pachá, com “ch”, em 2010. Fotos da época estão lá para provar, perto das muitas imagens de santos enfileirados, muita fé? Nem tanto, vale-tudo, afinal, proteção nunca é demais.

Zico inventava modas e continua inventando, com a mesma energia. Em 1996, por exemplo, trouxe à cidade expoentes da gastronomia para cozinhar, naquele tempo, restrito a ambientes exclusivos, pouca gente sabia o que era alta gastronomia. Tinha uma loja, belíssima vale dizer, onde promovia cursos e vendia as cobiçadas panelas Le Creuset, porém, desconhecidas da maioria, entre outros utensílios. Estava à frente do seu tempo, o mercado da gastronomia aqui ainda engatinhava.

Apesar de gostar de cozinhar, ter feito curso no Senac do Rio de Janeiro, época em que a namorada da vez era da cidade, e ter experiências gastronômicas, como o bistrô Poivre Vert que fez fama desde a primeira semana da abertura, parece que Zico Garcez gosta mesmo é de receber os clientes e o faz como se estivesse em casa. Esse é um dos segredos do lugar. Também não para de inventar atrativos. Quem for de bicicleta tem desconto, “até hoje não foi ninguém”, confessa rindo, quem for com amigos e não beber porque é o motorista da vez, dependendo da escolha, não paga a conta, e por aí vai. Nos planos, se fosse “dois”, abriria uma filial na praia, “as pessoas querem que eu esteja sempre aqui”, lamenta, sem arredar o pé do lugar.

Segunda-feira é dia de buscar comida, são inúmeros os pedidos. Camarão na champagne é servido numa mesa e na outra os clientes podem estar comendo rabada com agrião, bolinho de arroz, dobradinha com feijão branco e língua com ervilha, que fazem sucesso, com justiça, bem como a pimenta que pode ser recheada com crocante de camarão, linguiça Blumenau ou carne moída, além de outras porções tradicionais de boteco. De terça a quinta-feira, durante o inverno, é dia de rodízio de “escondidinhos”: bacalhau, carne seca, linguiça Blumenau e camarão. Com a linguiça bêbada na cerveja sul-americana, participou do desafio do melhor happy hour de Curitiba, e um pedido de uma amiga para festejar o aniversário virou o prato do almoço de sábado, feijoada, assim caminha o cardápio. Conversar com ele é difícil, se não estiver ao telefone, está falando com um cliente, testando uma receita nova ou cuidando da saída dos pratos. Usa as redes sociais – criou o prato do dia e já tem uma legião de seguidores eletrônicos –, alimentando com as atrações da casa a extensa lista de amigos, que costumam levar bronca se passam muito tempo sem dar as caras. Zico quer todo mundo lá. “Venha à vontade” que será bem recebido e não é um convite apenas para os amigos.

Peço uma receita para publicar e ele me diz: “agora?”, pergunta e fala de pronto, sem dar muitos detalhes, como faz um prato famoso da casa: o filé poivre. “Derreta manteiga numa frigideira bem quente, quase até queimar, jogue pimenta verde, flambe com conhaque e coloque creme de mesa”. Minha vez de perguntar, “só isso?”. “Ninguém acredita, minhas receitas são simples”, diz com seu sorriso habitual.

 

Serviço

Bar do Pachá

Rua Cláudio Manoel da Costa, 548 – Bom Retiro

Telefone (41) 3044-4480


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