MARIANNA CAMARGO26 | 06 | 2012
Um dia que esqueci de mim. Entre batalhas, desejos e sonhos não fiz planos para o futuro. Não havia tempo, não havia como, não era possível. Encarei sem o menor problema, afinal, há um certo mistério nas pessoas que não planejam.O mistério está sempre entre as coisas. O caminho de nãos, de vazios, de recusas intermináveis. Como pensar no futuro? Acabei com ele, era pior se existisse. Bem ou mal, aos trancos e barrancos, segui. Não sei que dia exato foi esse, apenas agora me dou conta que ele existiu. Todavia, existe um momento que é a hora do salto, quando se atravessa a ponte. Como sonho. Como algo impossível que concretiza. Mistério há de rolar por aí.
A margem oposta foi atravessada. E agora? Reinventar a trilha, mergulhar em outra paisagem, subtrair o excesso da natureza. Olhar o abismo e sentir vertigem, não cair porque tenho medo, porque não pode acabar assim, porque para que não sinta a vertigem e caia, se planeja, portanto, não acontece com quem não conta com o futuro. É um contrassenso. Existe apenas o pragmatismo das horas vencidas, o suicídio do tempo suspenso, o inevitável cansaço do real. A realidade cansa. Massacra, aniquila. É preciso inventar uma maneira de salvação. Por isso existem as abstrações, o silêncio, a pausa, fundamentais para os que não creem no futuro. Sem isso seria impossível seguir em frente, curar as feridas, coçar a cicatriz.
O futuro não está escrito, sentenciou o fundador e vocalista do The Clash, Joe Strummer. Acabei com todas as vírgulas a mais, reticências, dois pontos. Não são necessários. Preciso mais dos pontos e dos brancos. Da imagem tipográfica que vai se formando como se fosse um código revelador. Nesta hora não penso, nesta hora caio do abismo, nesta hora enxergo a margem e consigo atravessar a ponte, sem medo do futuro.






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