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Estrela Ruiz Leminski15 | 09 | 2010

Gente de Ideias

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Revista IDEIAS. Política, Economia & Cultura do Paraná

Foto: Louise Bianchi

Mudei de país, mas não mudei de cidade. Essa foi a primeira frase que falei quando cheguei em Valladolid, cidade espanhola onde vim morar um ano para fazer mestrado em música. Quando ganhei a bolsa da universidade e pesquisei sobre a cidade, vi que estava indo para uma cidade fria, capital da província, pioneira em urbanismo e iniciativas ecológicas.

Tive todas as fases, do deslumbramento de viver na Europa à Asterix achando “esses romanos todos uns loucos". Volto dentro de um mês, e já estou começando a tocar um "batuque na cozinha sinhá não quer" pra ver se não esqueço da onde eu vim. Mas o que eu percebo é que temos muito mais de espanhois do que imaginamos. Não adianta ler sobre bandeirantes e jesuítas, tive que viver na cidade em que morreu Colombo, se casaram Isabel de Castilha e Fernando de Aragão e visitar o Museu do Tratado em Tordesilhas para ver o outro lado da moeda. Enfim, conhecer a outra versão da nossa história.

Também aproveitei para me aprofundar nas minhas raízes, e averiguar as histórias que a minha vó (que nasceu em um navio) contava dos meus antepassados na Espanha. Em meio a trabalhos sobre a música medieval em Santiago de Compostela, shows nos festivais da Espanha, congressos acadêmicos, concursos de poesia, estava atenta ao sotaque, às comidas, às histórias de El Cid (origem do sobrenome Ruiz).

Mas nada comparável a minha ida no Museu do Prado. Um dos retratistas espanhois, Raimundo de Madrazgo, além de pintar (bem pago pra isso) personalidades, pintou uma cigana. Anônima cigana linda, parecidíssima com a minha vó. Isso seria só uma coincidência besta se não contassem, na minha família, que meu bisavô pagou para pintarem a minha bisavó, e que esse quadro estaria em um museu da Espanha. Verdade ou não prefiro ficar com a boa história.

Nada familiar pra mim é essa primavera em fúria, essas quatro estações que a gente só entende bem quando está por aqui. Já o inverno é como um velho amigo desconhecido. Só nos falta a neve. Mas neve é isso: o que eu imaginava (como o que fica no congelador) e o que eu não imaginava (lindo, silencioso, caótico, feliz e triste). Como Curitiba.

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