A transparência e o disco voador
A cidade de Denver, capital do Colorado, no Centro dos EUA, fará referendo em novembro próximo para decidir sobre a criação de uma agência municipal para contatos alienígenas. Os termos da convocação são claros: a comissão deverá assegurar a saúde e segurança dos habitantes de Denver, e também ajustá-los ao choque cultural nos contatos com seres terrestres inteligentes ou seus veículos – sim, veículos, e na falta de detalhes quero crer que seriam robôs exploratórios, como os que a NASA remete à Lua e Marte.
O referendo é resultado da campanha de Jeff Beckman, que a justifica na frustração de ufologistas e ufofilistas com a recusa do governo em liberar informações sobre visitas de encontros com extraterrestres, política que completa sessenta anos. Beckman conseguiu exposição na sua campanha – EXTRA – ponto divulgá-la no programa David Letterman, importante talk show da tevê dos EUA.
O referendo restringe-se ao Colorado, não expande para o resto do país, nem cogita dos conflitos com agências federais operando no campo da segurança nacional. Ao ler a notícia só tive uma dúvida: por que exato o Colorado? Não há resposta na convocação do referendo, mas posso imaginar que as Montanhas Rochosas, cartão-postal do estado, exerçam especial atração nos alienígenas. Ou que as minas que fizeram fama e riqueza do estado possam atiçar a cobiça extraterrestre.
No referendo EXTRA não me atrai a assistência no contato com alienígenas, apostolado de Jeff Beckman e de tantos aficionados – como minha prima, que desenhou o heliponto no terraço de seu sobrado, para fornecer porto seguro para naves do espaço exterior; não consegui entender a dimensão das naves, um pouco maiores que a de Mino, o extraterrestre das histórias em quadrinhos; mas conhecendo o combustível à base de cânhamo ingerido pela prima entendi que as naves caberiam perfeitamente no atracadouro.
Não descreio em alienígenas. Não tem sentido negar-lhes a existência, considerando a dimensão infinita, eterna e expansiva do universo. O que não faz sentido é achar que eles andaram por aqui ou que podem voltar à Terra. Se aqui pousaram e não fizeram contato, é plausível pensar que para eles não paga a pena maiores intimidades conosco. E se aparecerem não faço fé num contato amigável, fraterno, solidário, de colaboração. Ao contrário, eles nos dizimam ou eventualmente nos comem crus, com garfos e facas alienígenas. Tenho excelente companhia nesta convicção: Stephen Hawking, o maior físico da atualidade, disse que contato dos terráqueos com civilização alienígena – evidentemente mais adiantada – teria os mesmos resultados daquele entre os astecas e Hernán Cortés.
Não descreio em alienígenas. Não tem sentido negar-lhes a existência, considerando a dimensão infinita, eterna e expansiva do universo.
O que me fascina no referendo EXTRA é a consagração da democracia americana, em que tudo está aberto para debate e decisão. Fascina mais o referendo vir para enfatizar a noção da full disclosure, onipresente nas instituições e na vida americanas de um modo geral. As duas coisas andam juntas, a plena e aberta discussão e a full disclosure – que podemos traduzir para transparência, em português. A transparência norte-americana chega a irritar, como assistimos todos os dias: que melhor exemplo que a nomeação de um promotor especial para investigar as estripulias sexuais do presidente Bill Clinton, a ponto de aparecer como prova o vestido da namorada, com marcas do augusto sêmen presidencial?
A transparência americana se difunde em todos os sentidos. Começou nas igrejas pentecostais, em que os fiéis expõem seus pecados aos irmãos de fé e, com ruidoso arrependimento, redimem-se e são perdoados. O traço cultural da transparência permeia de tal maneira a sociedade americana que aparece nas técnicas de psicodrama para treinamento de vendas. Quem duvida compareça a reunião de treinamento da Amway, a maior vendedora de detergentes porta-a-porta. Ou num curso Dale Carnegie, em que para “aprender a fazer amigos e influenciar pessoas”, o aluno precisa primeiro lavar sua alma em público.
Mas o melhor do full disclosure está no exigir que o governo abra seus arquivos, que não pode subtrair aos cidadãos – a menos que traga risco à segurança nacional. Felizmente para os norte-americanos o espaço racional e político da segurança nacional não é estrito como o brasileiro – e é isso que nos interessa aqui. Os norte-americanos liberaram todos os seus arquivos sobre a II Guerra Mundial e mantêm sob sigilo parte deles sobre a guerra do Vietnã. Já o Brasil retém arquivos sobre a Guerra do Paraguai, que terminou há mais de cem anos, os do Estado Novo ainda são liberados em conta-gotas, alguns com trechos rasurados. Não sou rigoroso na crítica a Rui Barbosa, que como ministro do primeiro governo republicano, mandou queimar os registros de compra e venda de escravos. Se de um lado ficamos livres de demandas paraguaias por conta de Itaipu, no outro ficamos sem argumentos para as sucessivas exigências de cotas de afrodescendentes.
Também deve haver um traço religioso na tradição brasileira antitransparência, igualmente difusa em nossas instituições, inclusive na política. Esse traço há de ser o catolicismo, que reduz a confissão do pecado a um conchavo com o padre, que ouve escondido, não nos identifica, e burocraticamente nos isenta com amenas penitências. Nada daquilo de lavar a roupa suja diante da igreja, da televisão, do clube, da empresa, como nos EUA. O crescimento das religiões pentecostais e fundamentalistas no Brasil não teve ainda sedimentação para mudar o comportamento – nem entre os bispos deputados apanhados em flagrante delito.
Mas incluímos a transparência na constituição e nas leis. A cada dia temos mais leis sobre transparência, em absurda sobreposição de normas, a seguinte para dar força à anterior – surgiu nestes dias uma lei antidiscriminação racial, matéria de lei anterior e da constituição. A constituição e as leis determinam que o Estado seja transparente, que informe tudo que faz, quanto gasta, com quem gasta, etc. O Estado não informa e surgem leis para determinar que o Estado informe. A antitransparência é tão forte que o próprio Estado esconde a lei que iniciou e não a vota, como acontece no Paraná com a lei da transparência, que a assembleia legislativa conserva no olvido de uma gaveta.
Para dar foros de elegância a esta análise teria que dizer que na transparência o Brasil vive conflito entre a ética e a religião: uma quer a transparência, outra atua para que os pecados fiquem bem escondidos. Então está claro que a transparência não integra nossa mos maiorum, a tradição ancestral e inconsciente coletivo. Não pegou. Ponto. A menos que algum disco voador pouse no Brasil. Aí teremos transparência, o governo não poderá sonegar a informação – que será divulgada pelo presidente e sua candidata jactarem-se precursores no contato alienígena. Nessa transparência seremos nós, diferentes, superiores aos norte-americanos.







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