CAVALO DE TROIA
O PT desistiu de tentar vencer com face própria em Curitiba. Percebeu, depois de quase três décadas de fracassos, que o discurso da esquerda nacionaleira e populista não faz sucesso por aqui desde 1985, quando Roberto Requião se elegeu prefeito com promessas de levar o proletariado ao poder. Desde então, só sentiu o sabor do fracasso e da frustração.
Depois de sucessivas derrotas com Ângelo Vanhoni e Gleisi Hoffmann, sem contar as pífias iniciativas do PMDB com Maurício Requião e Carlos Moreira, o PT decidiu abandonar seu vale de lágrimas e foi buscar nos quadros do PSDB um nome palatável para os segmentos mais conservadores de Curitiba como forma de melhorar a fachada para conquistar o poder no principal colégio eleitoral do Paraná.
Essa flexão tática obedece a novo plano estratégico do PT nativo. Seu principal objetivo é o de eleger o governador em 2014 e dar a vitória para a reeleição de Dilma Rousseff ou Lula na República. O candidato natural ao Governo do Paraná é Gleisi Hoffmann, pois o PT não tem outro quadro com densidade eleitoral suficiente para tentar a sorte, embora nunca faltem pretendentes de todas as cataduras. Por isso mesmo Gleisi não se candidataria a prefeita jamais. Seu nome está reservado para o grande objetivo estratégico que é o Governo do Paraná.
Sem candidato viável, o PT saiu ao mercado em busca de um genérico que lhe substitua no papel. Para a corrente majoritária que controla a sigla no Paraná, pouco interessa o que fará um candidato apoiado por ela, contanto que em 2014 apoie Gleisi Hoffmann para o governo.
Lépido e pragmático, o PT da linha light saiu em campo. Da pesquisa entre burgueses e burguesotes surgiram alguns nomes. O mais votado foi o de Gustavo Fruet, recém-saído de eleição majoritária em que disputou com a estrela máxima do PT nativo, Gleisi Hoffmann, a cadeira de senador. Teve boa votação e as pesquisas mostravam que sua popularidade crescera justamente quando ele se erguera como bastião da moralidade contra a corrupção flagrada no esquema do Mensalão, obra do PT e do ex-presidente Lula que neste ano de 2012 terá novo capítulo desgastante com o julgamento dos “mensaleiros” pelo STF.
Do encontro dos pragmatismos sob a égide de “os fins justificam os meios”, deu-se o entendimento entre o tucano Gustavo Fruet, algoz de Lula e do PT, com o próprio PT de Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo, casal de ministros de Dilma Rousseff. Nada que surpreenda na política brasileira. Acordo do tipo já não envergonha a maioria dos políticos. Surpreende a mudança brusca de Fruet, que passa de uma trincheira à outra sem nenhum pejo. Os constrangidos nessa pequena história de traições foi o presidente Lula e os líderes secundários das pequenas facções dentro do PT.
O resto aderiu e faz cara de esperto. O PT acredita que é ele quem usa Fruet e não o inverso. Digamos que nesse casamento de conveniências todos tiram o seu naco de vantagens. É de um graúdo petista local a frase que sintetiza as intenções do grupo que domina o PT no Paraná:
— O Gustavo Fruet é nosso Cavalo de Troia. Ele será nossa fachada para penetrar na fortaleza do inimigo.
O partido das controvérsias
Há controvérsias, sempre há controvérsias dentro do PT que hoje alberga gente que vai da extrema canhota à direita que se esconde detrás de moralismo chinfrim. Mas neste caso, além do levante de candidatos do próprio PT que pretendiam abocanhar o prêmio com a ingênua esperança de se elegeram na garupa de Lula e Dilma Rousseff, a manobra ficou engasgada para gente mais importante no PT. Não é o Dr. Rosinha ou Tadeu Veneri, com suas pretensões, que preocupam os novos condutores de Gustavo Fruet. Essa jogada não agradou a Lula e menos ainda a aliados leais que nem foram consultados sobre o tema.
Pois, pois, consumada a primeira parte da Operação Cavalo de Troia, o ex-presidente Lula declarou que não vai apoiar Gustavo Fruet no primeiro turno. “Nem que a vaca tussa”, afirmou em seu linguajar de gosto popular. Não virá a Curitiba para subir ao palanque de Fruet e também não gravará mensagens de apoio para rádio e TV.
No segundo turno, quem sabe? A verdade é que o ex-presidente sente um enorme desconforto toda vez que lhe falam em Curitiba e logo quer mudar de assunto. Aqui, se sentiria muito bem no palanque de Ratinho Junior, o candidato do PSC que sempre esteve em sua base de apoio e que é filho de um amigo, o apresentador Carlos Ratinho Massa. Candidato que está na ponta das pesquisas de opinião e que poderia cumprir o objetivo traçado de conquistar a vitória em Curitiba. “O PT sonha com um upgrade social em Curitiba”, explica um aplicado sociólogo da turma. Ou seja, Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo querem vencer no Country Club.
Pois, pois, Lula e seu time têm outra compreensão do processo. Lula participou do programa do Ratinho (pai) e lá se encontrou com Ratinho Junior nos bastidores. Sem ser provocado, foi logo esclarecendo que não participou da escolha do candidato do PT em Curitiba, operação comandada pelo casal Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann. E garantiu que aqui não vem.
Os mais chegados a Gustavo Fruet tentam minimizar a perda do apoio de Lula no primeiro turno das eleições deste ano. Repetem a fábula da Raposa e as Uvas. Dizem que Lula não é o grande eleitor de Curitiba e prova disso é que não influenciou a favor das candidaturas de Angelo Vanhoni e de Gleisi Hoffmann, que eram do PT e foram derrotados. Aqui, dizem eles, o Fruet tem seu eleitorado próprio e o apoio do PT é muito mais estrutural e logístico. “O resto até atrapalha”, diz um deles que roga para não expor seu nome. Argumenta que setores que apoiam Fruet e se sentem desconfortáveis com a aliança com o PT ficaram satisfeitos.
Outro insatisfeito
Outro que saiu de asa quebrada desse imbróglio foi o senador Roberto Requião. Durante os anos em que esteve no governo foi aliado do PT, que não se fez de rogado ao ocupar espaços importantes na administração. Entre eles, a Secretaria do Planejamento para o deputado Enio Verri, presidente estadual da sigla.
A armata de Requião apoiou o PT nas disputas eleitorais de Curitiba nos últimos anos. O rompimento dele com Fruet se deu exatamente porque cumpriu um acordo com Ângelo Vanhoni e dispensou Fruet como candidato próprio, quando este era escudeiro de Requião. Foi nesse episódio, magoado porque não foi o escolhido, que Fruet virou tucano. Requião não esquece:
— Não acho o Gustavo Fruet apenas pelego, mas neste episódio vejo canalhice pura e simples do PT depois do Fruet ter saído do PMDB quando apoiamos o PT e o Vanhoni. Esse é o padrão moral de Paulo Bernardo.
Por essa e outras, Requião não apoia o PT nesta manobra e insiste em lançar candidato próprio, o ex-prefeito Rafael Greca de Macedo. Ninguém sabe o que vai acontecer com o PMDB, pois hoje os seus deputados estão com o governador Beto Richa, do PSDB, e loucos de vontade de apoiar o prefeito Luciano Ducci, do PSB, que representa Richa nesta disputa.
Requião faz esforço para não perder a condição de referência de uma parcela significativa da esquerda nativa. Se irrita com a condição de político em fim de feira a que foi relegado pelos antigos correligionários. De qualquer maneira, o espaço que terá no rádio e na TV com a candidatura de Rafael Greca de Macedo certamente será usado por ele para achincalhar Gustavo Fruet, o PT e seus próceres Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann. Munição não lhe falta.
Ele não perde a oportunidade de destilar veneno e comentários viperinos contra o ex-correligionário Gustavo Fruet. Questionado sobre a hipótese do neossocialista moreno ter o petista Ângelo Vanhoni como seu vice, chacoalhou os guizos no twitter:
— Seria o mesmo que Einstein como vice do Pessuti.
E anuncia que o PSDB convocará Gustavo Fruet na CPI do Cachoeira, para que confirme suas acusações ao PT, Lula e seus membros, que fez na CPI dos Correios, Mensalão e outros escândalos contra Lula e o PT usados por Fruet para surfar e adquirir popularidade.
Não esconde também que vem aí uma série de denúncias cabeludas contra Fruet. E agita as pesquisas de opinião que até agora mostram a imensa dificuldade de Fruet para penetrar nos segmentos sociais dos mais pobres e mais carentes. Ou seja, o PT não consegue dar o que prometeu em troca do eleitorado de Fruet nas camadas de cima. E a barreira mais forte é a candidatura de Ratinho Junior, que navega sem obstáculos. Nem Fruet, nem Ducci, querem briga com ele, pois no segundo turno ele poderá ser um aliado decisivo.
Assim caminha
A verdade é que o PT perdeu a condição de partido de sólida tábua de valores e princípios. Acontece com frequência na política brasileira. Partido que chega ao poder passa a incorporar os escolhos que restaram do período anterior e para isso mudam radicalmente de postura e aderem com facilidade aos hábitos e costumes instalados por aqui desde antes do descobrimento.
O fenômeno é claro nos casamentos políticos na província. Em outros tempos, dizia o Luís Roberto Soares, falava-se muito em casamento de conveniência. Hoje, quando muito, fala-se na inconveniência do casamento, o que não impede as pessoas de se casarem cada vez mais. Há as que casam até seis ou oito vezes. Os casamentos de conveniência costumam durar o que dura a conveniência: algumas vezes uma vida inteira. Outras, uma temporada eleitoral.
Diante do quadro tão ágil dos hábitos sociais contemporâneos, como classificar o comportamento dos nossos políticos e dos seus partidos?
Dir-se-ia que os políticos fazem o que podem: oscilam entre os casamentos de conveniência, mais frequentes na área dos governos, e as alianças de circunstâncias que, mal ou bem, estão permitindo a estruturação de alguns blocos para as eleições de outubro.
Ora, o casamento entre Gustavo Fruet e o PT dos ministros Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo é apenas um exemplo de casamento de conveniência e deve durar o quanto dure a conveniência. Para Fruet, até o fim desta eleição. Para o PT, até 2014, quando pretende eleger Gleisi Hoffmann ao Governo do Paraná.
Assim caminha a humanidade. O PT se encaminha para uma nova tentativa de derrotar os tucanos, agora com a ajuda de seu Cavalo de Troia, o lépido Gustavo, que leva consigo a camada mais conservadora da população e da mídia, com tintas de fundo religioso e um moralismo chinfrim que sempre faz sucesso nessas paragens.







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