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Fábio Campana10 | 04 | 2012

A DAMA DAS SAPATADAS

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Joice Hasselmann deixou a Bandnews. Pressões políticas a afastaram. Mas reinaugura seu Olho no Olho em uma emissora de TV e em uma rede de rádios para desespero dos poderosos nativos
Revista IDEIAS. Política, Economia & Cultura do Paraná

Loira, alta, 1,85m somado o salto 15. Olhos azuis, cabelos lisos e longos. Ângulos e curvas perfeitos aos 34 anos. A descrição serviria para Marlene Dietrich, Romi Schneider ou Gisele Bündchen. Qual o que. Falamos aqui da beleza encantadora de Joice Hasselmann, mulher que costuma provocar admiração e medo, algumas vezes pânico, em homens e mulheres que entrevista ou que estão em sua pauta de reportagem.

Sua especialidade no jornalismo é entrevistar os poderosos e as poderosas habituados a dominar a cena e as situações. Jornalismo político que a envolve no terreno difícil e pantanoso das disputas de poder. Política é jogo bruto, mais ainda nestas paragens onde a democracia apenas começa a se desenvolver e onde o autoritarismo tem longa história.

Pois diante de Joice Hasselmann todos são iguais perante as perguntas. Olho no olho. Ela costuma começar com o tema mais corrosivo. De forma direta. Sem rodeios, sem engodos, sem simulações. Vai direto ao ponto. Mostra logo quem está no comando. Quem não tem bom controle dos nervos que não se aventure.

— Gosto de desestabilizar o entrevistado, explica. Tem gente que chega preparada, com o discurso pronto, na ponta da língua. Se não responder a minha pergunta eu corto e pergunto de novo. E adianto, não venha com discurso.

É a sua técnica e costuma surtir efeitos surpreendentes. E que lhe rendeu vários ápodos, além de xingamentos à socapa. O mais famoso é “Dama das Sapatadas”, depois de muito chutar canelas e países baixos de pessoas gradas desta área chuvosa do planeta.

O importante para Joice Hasselmann é que o seu convidado não se sinta confortável, dono da situação, a dar respostas preparadas, agradáveis para ele e absolutamente sem graça para o ouvinte. É isso. Joice quer amarrar o interesse do distinto público com perguntas que o ouvinte gostaria de fazer.

— Não combino perguntas. Quem quiser fazer isso não vai ao programa.

Ora, pois, não foram um nem dois que tentaram essa manobra através de seus assessores. Perderam o tempo e a dignidade diante da inflexibilidade absoluta da loira. Despachados de volta à origem após uma carraspana de dar dó. Ela não esconde que um dos que tentaram combinar a entrevista foi Roberto Requião quando era governador. Um soturno auxiliar tentou convencê-la a aceitar a encenação.

— O Requião quis combinar a entrevista, eu não aceitei e ele não foi ao programa. Respondeu que só iria se fosse outro entrevistador.

Bom, para ter outro entrevistador só em outro programa. A informação de bastidores é que o governador ficou irritadíssimo e despejou sua ira sobre o pobre diabo a quem encomendara o entendimento com a jornalista. “Incompetente” foi o mínimo que disse. Mas a verdade é que não há competência capaz de dobrar Joice Hasselmann, que vai logo dizendo:

— Não vendo notícia, não faço nada combinado, não me ligo à canalha, não faço teste do sofá.

O pobre diabo voltou ao seu inferno cheio de rancores, mas impotente para dobrar a loira mais temida nesta área do planeta. Ela não tem nada a esconder e muito que mostrar, por isso mesmo não se intimida. Aos 34 anos, acumulou uma experiência invejável no jornalismo que a distingue como a melhor entrevistadora que pintou na mídia na última década.

— Eu respeito a vida privada, os assuntos domésticos e pessoais. O que me interessa é a vida pública. Se o entrevistado tem amante ou não, pouco se me dá. Se ele não paga o motel e não dá presentes com dinheiro público, o problema é dele e eu não tenho direito de intervir.

Essa é uma das regras de ouro que segue. Sua investigação é sobre tudo aquilo que seja de interesse público. Tudo o mais, inclusive as versões, não entram em sua pauta. Ninguém a viu fazer de um assunto pessoal, privado, matéria muitas vezes de gosto perverso do público, um tema para aumentar a sua audiência.

— Me preocupo com a notícia, nunca com as limitações de qualquer linha editorial. A minha linha é a notícia e se é notícia tenho a obrigação de revelar. Ponto.

Ou seja, Joice está na honrosa lista dos jornalistas que acreditam que o único pecado capital é omitir ou desvirtuar um fato que sabe ser verdadeiro e de importância para a vida social. O resto é política, jogo de interesses, subordinações inadmissíveis.

Essa dedicação ao jornalismo investigativo, que procura revelar o que está por detrás das cortinas do poder, lhe rendeu muitas vezes retaliações assustadoras. Recebeu ameaças, invadiram sua casa, furaram o pneu de seu carro para imobilizá-la. Sem contar os bilhetes com as mensagens típicas: “Cuidado, o peixe morre pela boca”. De onde partem essas ações de intimidação?

— Acho que foi um grupo. Não apenas uma pessoa, mas um grupo que colocou gente para fazer esse tipo de coisa. Sei disso pela forma como tudo aconteceu. Só não posso citar nomes porque ainda estão investigando.

Em alguns momentos ela sentiu o perigo muito próximo e o grau da violência aumentar. A própria polícia a avisou que tinha detectado uma ação contra ela que podia ter final mais contundente. Tirou férias forçadas na rádio, viajou, saiu da cidade e levou consigo a família.

— Preservo meus filhos. Não quero que corram riscos. O caçula, de 3 anos, não tem o meu sobrenome por isso. Já apedrejaram o ônibus escolar da minha filha, por aí se vê com que tipo de gente e de interesses nós lidamos.

Esses incidentes não a tiraram de sua trincheira na rádio Bandnews. Continuou a dirigir a rádio, a entrevistar, a pautar a reportagem e a fazer medo a políticos, empresários, governantes e outras personagens de alto coturno que não gostam nem de ouvir o seu nome. Para eles, Joice Hasselmann é a pessoa que desvenda segredos inomináveis da corrupção que jamais seriam notados não fosse sua determinação.

Poucos sabem, mas Joice é também uma grande repórter. Daquelas que vai fundo nos assuntos que investiga. É o caso das TVs laranjas, uma compra enorme de televisores através de um leilão eletrônico ganho por uma empresa que era, por coincidência, a empresa que deu a maior contribuição para a campanha eleitoral da reeleição do governador Requião.

Joice Hasselmann pôs o negócio a limpo. De forma tão clara que levou o irmão do governador, Maurício Requião, que ocupava a Secretaria de Educação e fora o ordenador da despesa, em julgamento público. Sem defesa convincente. Os televisores comprados por Maurício Requião eram muito mais caros que aparelhos idênticos à venda no mercado.

A casa caiu. O governo reagiu com virulência. Atacou-a nos veículos oficiais. Joice foi processada e na mesma época recebeu todo tipo de ameaça. Teve que andar escoltada por seguranças. Mas ela é “uma alemoa corajosa” como dizia um guardião da rádio. Tanto que não deixou a peteca cair, manteve as investigações e as denúncias. Foi o pior de todos os escândalos sofridos pelo governo de Roberto Requião e especialmente pelo irmão caçula do governador, o então secretário de Educação Maurício Requião.

Para provar que não há part pris no jornalismo de Joice Hasselmann, basta ver que ela arrumou desafetos em todas as correntes políticas. Sem exceção. Pelo seu crivo passaram presidentes da Assembleia, como Nelson Justus e Hermas Brandão, deputados influentes como Alexandre Curi, ministros como Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann, prefeitos como Beto Richa e Luciano Ducci, candidatos como Gustavo Fruet e Ratinho Junior e, agora, o governador Beto Richa, que não exige nada pré-combinado.

É áspera a vida de qualquer jornalista, especialmente daqueles que cobrem a política e o poder. Há vaidades, interesses e fortunas em jogo. Por isso mesmo a confrontação é dura.

– Não tenho medo de fazer o que faço, e não vou deixar de fazer por receber ameaças. Meu compromisso é com o público.
O outro front desse conflito é o Judicial. Os humilhados e ofendidos decidiram apelar sempre para processos em defesa da honra para tentar obstruir o trabalho jornalístico.

— Fui processada várias vezes. Ganhei todos os processos. Tem gente que fala que sou muito crítica, mas provo tudo o que falo, nunca fiz nenhuma acusação sem fundamento ou sem prova. É o que me deixa passar incólume pelos processos.

Hoje, Joice Hasselmann tem uma rede de informação que lhe fornece informações privilegiadas antes de qualquer outro. Ela mesma explica que não se vale de assessorias de imprensa. Procura as notícias diretamente nas fontes. Recentemente ela recebeu um relatório do Tribunal de Contas sobre os preços do pedágio que nem o presidente do TC conhecia. Quando ela lhe informou, reagiu:

— Onde e como você conseguiu isso? Eu não sabia.
Pois bem, ela emprestou a sua cópia para que ele se preparasse para ser entrevistado no dia seguinte, o que, aliás, aconteceu.

Quando se sentiu pressionada a revelar sua fonte, publicou um post em seu blog para esclarecer que não revela suas fontes nem sob tortura. O segredo da fonte é um direito constitucional do qual ela não abre mão. Nunca.

Agora, Joice dispõe de novas ferramentas de comunicação. Um deles é seu blog, que é um sucesso de público. Em pouco tempo transformou-se em uma das referências de informação para jornalistas, políticos, empresários, governantes e para o distinto público que lhe é fiel. Público que dela exige que mantenha o seu estilo, o mesmo que provoca gastrite em entrevistados. Joice é, para a grande maioria que a ouve, quem revela as verdades que os poderosos querem esconder. E ela faz isso como um quase sacerdócio. Todos os dias atrás das notícias para trazê-las antes de qualquer outro. Essa a sua vaidade.

— Algumas denúncias fui eu mesma que cavei. Acho importante fazer este trabalho jornalístico e chamar os responsáveis para que se expliquem. Eles não estão acostumados com isso e muitas vezes berram, reagem, depois de tudo ir ao ar. Mas aí é tarde.

Essa loira que queria ser médica neurologista, muitas vezes convidada para ser modelo, outras tantas para dirigir empreendimentos, virou jornalista por acaso. Acompanhou uma amiga em um teste de televisão. Acabou fazendo e foi chamada. Cursou jornalismo na Universidade de Ponta Grossa e adotou a profissão com entusiasmo e garra.

— Sempre tive esse ímpeto de provocação, desde pequena, não tenho medo de ninguém. Sempre gostei de política, do contraditório e da busca da verdade.

Experiente, ninguém lhe engana. Ou melhor, quase ninguém. Ela registra, com humor, a sua decepção na saída da rádio Bandnews, onde ficou seis anos e meio e onde criou o programa “Olho no Olho”, o de maior audiência na emissora. Ela ouvia do empresário Joel Malucelli, dono da rádio, seguidamente:

— Você é como uma filha para mim.

Acreditou. Agora sabe que não deveria ter acreditado, mas compreende que o jogo do poder nesta área do planeta é duro.

— Saí da Band porque houve uma pressão muito grande de políticos poderosos para mudar minha maneira de fazer jornalismo. Não aceitei, não baixei a cabeça, A melhor coisa que fiz foi sair e estava na hora.

Fotos Dico Kremer
         

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