Juvenal fez cem anos e ninguém comemorou
Exatos cem anos. Na noite do dia 3 de maio de 1912 estreou em Curitiba, no velho Theatro Guayra, a ópera “Sidéria”, de autoria de Augusto Stresser e Jayme Ballão. A primeira ópera genuinamente paranaense, conforme diziam e queriam seus autores. Foi um acontecimento memorável para o mundo das artes curitibanas daqueles anos.
A ópera fala de uma grande tragédia. Conta a história da jovem Sidéria, desejada por Juvenal, mas apaixonada por Alceu, que por sua vez era noivo de Thylde. Uma quadra amorosa que se desenrola em plena Revolução Federalista. A obra foi interpretada por um elenco amador, que teve a seguinte formação na primeira apresentação pública:
SIDÉRIA - Marietta Bezerra (soprano);
THYLDE - Josepha Correia de Freitas (soprano);
ALCEU - Jorge Wucherpfenning (tenor e único profissional, remanescente da Companhia de Operetas Alemã Papke);
PAULO - Constante Fruet (barítono);
JUVENAL - Jorge Leitner (tenor);
CAMPONESA - Ana Kirchgaessner (mezzosoprano);
CAMPONESES - José Buzetti Mori e Luis Romanó.
Batizada de “Sidéria” em homenagem à sua filha, Augusto Stresser e seu primo Jayme Ballão escreveram a ópera com dois atos. Depois de pronto o libretto, surgiu o problema da orquestração. Como Curitiba em 1911 não contava com músicos habilitados para tal empreitada, foi graças à extinção da Companhia de Operetas Alemã Papke e ao regente Léo Kessler que conseguiram concluir o trabalho. Nessa finalização, com a ajuda imprescindível do maestro Kessler, a ópera sofreu alterações e ainda ganhou mais um ato. Em 1912, estava pronta para montagem e apresentação pública.
Após a estreia, na edição de maio do jornal “A República”, os curitibanos puderam ler a seguinte crítica:
“[...]nunca se pensou que o sr. Augusto Stresser pudesse ter tanto êxito nesta sua incursão pelo caminho da música trazendo com ele, Léo Kessler. É natural e digno que se registre a bem da verdade, que já se conhece a sua capacidade artística. Vale a notar a sua ardente e feliz inspiração, que combina a se acasala com o clima que a Capital lhe deu como cenário magnífico da ópera” (Jornal A República.Curitiba: edição de maio de 1912)
Naquele início do século XX, quando poucos tinham oportunidade de seguir carreira artística erudita, era surpreendente que alguém jovem já pudesse ser tão presente na vida musical do Paraná. Augusto Stresser era um flautista de primeira linha, apaixonado pela música e compositor de mazurcas e prelúdios. Aos 23 anos participou da fundação do Grêmio Musical Carlos Gomes e integrava a Orquestra da Catedral Metropolitana de Curitiba. É de sua autoria o hino em homenagem ao cinquentenário do Paraná.
Mas não é só isso. Stresser diversificava nas atividades artísticas. Além de flauta, tocava flautim, contrabaixo e piano. Era também pintor, poeta, fotógrafo e jornalista. Em parceria com o poeta Silveira Netto, publicou o jornal literário “O Guarany”. Mais tarde, junto com Leite Júnior, fundou o jornal “A Fanfarra”, além de colaborar nos jornais “Diário da Tarde”, de Curitiba, e no “O Itiberê”, de Paranaguá. Morreu aos 47 anos, vítima da gripe espanhola.
JUVENAL
Dentro da trama chorosa e trágica da ópera, Juvenal é o personagem de maior realce. Enquanto os outros são cheios de virtudes, boas intenções e amores nobres, Juvenal é o vil traidor, pérfido, desleal, enganador, insidioso e velhaco. E por ser um poço de maldades, ele se destaca na história.
Juvenal é apaixonado por Sidéria, uma mocinha singela de 15 anos, que mora com o pai Paulo, em algum vilarejo rural dos arredores da cidade da Lapa. Seu amor não é correspondido pela jovem que, por sua vez, suspira de amores por Alceu, um rebelde idealista e fugitivo das tropas federais. Ao saber que o pai de Sidéria está dando abrigo a Alceu, Juvenal faz sua primeira grande maldade: delata o esconderijo de Alceu, atingindo também Paulo e sua filha. Arrestado, Alceu vai para a prisão e sofre. Sofre muito.
Escrita em trovinhas e com rimas pobres, Augusto Stresser termina o primeiro ato com Juvenal comemorando o feito, Sidéria chorando copiosamente e Alceu preso nas ferragens. Juvenal canta vitória:
“A sorte me favorece:
Entre as grades da cadeia
Elle está fóra de luta,
Livre o campo me franqueia”.
No segundo ato, o cenário é uma praça perto do acampamento dos federalistas. Aqui entra a personagem Thylde, a noiva de Alceu, que não sabe do amor de Sidéria e o amado, e torna-se amiga dela, ambas lutam juntas pela salvação do prisioneiro. Juvenal, ao ser novamente recusado por Sidéria, a mata a punhaladas e se suicida. As canções do segundo ato se concentram no sofrimento da prisão, na morte de Sidéria e no desencanto do amor de todos eles. Alceu lamenta:
“Golpes cruéis do destino,
Insidias da trahição:
Prende-se o homem, minha amada,
Não se prende o coração...”
O terceiro ato acontece em frente ao túmulo de Sidéria. A aflição do pai, o desespero de Alceu e o consolo dado pela noiva Thylde compõem a última cena. Alceu sofre alucinações, sonhando que Sidéria o chama para junto dela. Assim, tomado por extrema emoção, Alceu cai fulminado sobre o túmulo. À meia-noite em ponto, ele morre. Uma roseira, então, nasce e cobre a lápide da amada.
Resumo da ópera: o amor não venceu. Morreu Sidéria assassinada, morreu Juvenal por suicídio, morreu Alceu por desespero. Sobrou viva somente Thylde, a noiva traída que, pelos costumes da época, não deve ter se casado jamais após a perda irreparável do objeto do seu amor.
Talvez a obra de Augusto Stresser também esteja prestes a morrer. Ao completar cem anos da sua primeira apresentação, nenhum órgão dito cultural paranaense ou curitibano lembrou desse aniversário. Nenhum registro foi feito, nem mesmo pelo Teatro Guaíra, detentor dos direitos da ópera, da partitura e do libretto, que foram doados pela família Stresser para que ficassem seguros e que não sucumbissem ao tempo e às traças.
Pobre Juvenal. Assim é o descaso ao patrimônio cultural do teatro paranaense. Suas palavras no ato final da ópera Sidéria dizem tudo:
“Ao desdém o ódio responde
Com alegria infernal:
Soffres o justo castigo
De, ao bem, preferir o mal.”
“Sidéria, maldita sejas!
Maldito quem te perdeu!”







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