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Renan Machado14 | 05 | 2012

Me chamo Chiputchin

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Revista IDEIAS. Política, Economia & Cultura do Paraná

Grupo de teatro amador é destaque no cenário independente curitibano por interpretações complexas e peças de roteiro próprio

 

A duras penas encontrava-se o lugar, escondido ao fim de um beco. Luzes e paredes recobertas com papel colorido destacam o Teatro Cultura no ambiente assombrado. Na noite de 31 de março, sábado, caía uma fina garoa curitibana: a saída de casa naquele clima tinha de valer a pena. O cartaz à frente anunciava: “O Urso” e “O Jubileu”, de Anton Tcheckov, encenados pelo grupo de teatro experimental Por Mares Nunca D’antes Navegados. Mesmo quem chegasse em cima da hora, às 21, poderia assistir ao espetáculo, que ainda não começara. Algumas pessoas fumavam. Outras, na ânsia de conseguir um bom lugar (as cadeiras não eram numeradas), formavam uma fila, que se esgueirava pela porta estreita.

 

O preço do ingresso assustava uns e outros. Vinte mangos? “Mas tudo bem”, diziam os determinados. Pagavam. No pequeno auditório, a plateia apertava-se. Quando todos dali levantaram, cerca de cinquenta minutos depois, concluíram que valera cada centavo desembolsado. No palco, um cenário residencial antigo. Uma mulher, toda de preto, encontrava-se sentada sob uma luz focal. Tinha início “O Urso”, a primeira peça da noite.

 

A navegar veredas A apresentação simultânea de “O Urso” e “O Jubileu” fez parte do Fringe, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba. Diferente da mostra oficial, a paralela permite a participação de grupos amadores e encenação de peças d’antes montadas. Em 2012, o festival chegou à 21ª edição com a mostra oficial. O Fringe debutou com estilo nesse ano, e em sua 15ª edição trouxe espetáculos de dezenove estados brasileiros, apresentados em mais de sessenta espaços da cidade.

Por Mares Nunca D’antes Navegados é um veterano no Festival de Teatro. Neste ano, além de “O Urso” e “O Jubileu”, o grupo apresentou a peça escrita por João Paulo Godinho, diretor do grupo, chamada “As Quarentonas”. A comédia trata, segundo Ricardo Freire, que atua na peça no papel de uma doméstica, de duas coroas que, encalhadas aos quarenta anos, fazem mais fofocar, dividir suas experiências de vida e esperanças na espera do príncipe encantado. A primeira montagem do ensaio aconteceu no Fringe, em março de 2008, ano de estreia do grupo na mostra paralela. Em julho do mesmo ano, “As Quarentonas” foi encenada em apresentação especial, a convite da família de Renato Russo, os Manfredini, no encontro anual que fazem.

O grupo nasceu em 2003, formado por ex-alunos da Sátyros, escola de teatro curitibana. Nos quase dez anos de vida, o Por Mares encenou peças complexas, como “A serpente” e “O casamento”, ambas de Nelson Rodrigues, “Adão e Eva”, adaptação do conto de Machado de Assis e “A balada do Cárcere de Reading”, de Oscar Wilde, ensaio que, de acordo com Freire, mostrou-se a mais difícil de ser montada, pelo peso emocional e necessidade do ator de refugiar-se em seu íntimo.

 

E no Cultura... O ambiente aquecera-se por sua pequenez e a aura de Tcheckov crítico que pairava no ar. Suellen Alves, um dos nove membros do Por Mares Nunca D’antes Navegados, quiçá engasgou-se em certo momento com um líquido duvidosamente de cor neutra, tamanha a pressão. Era ela a mulher de preto, que em “O Urso” colocava em cheque seu respeito pelo marido morto. Viúva de falso luto e devedora de uma conta magistral que ficara à posteridade do companheiro, entregava-se ao “Urso”, homem bruto e sistemático, na pele de Daniel Simonetti (ou vice e versa). Ali era o sussurro do autor russo, um machismo debochado, que se levado a sério ofende e se não diverte.

Mais diverte. Tanto quanto o bordão do gerente egocêntrico: “Tão certo como me chamo Chiputchin”, repetido à exaustão. Eis “O Jubileu” que dá sequência ao espetáculo. Dadas proporções de ironia, a segunda peça da noite trouxe à tona a voz satírica do mesmo Tcheckov à burguesia pedante. A montagem exigiu do grupo a habilidade de interpelar duas cenas no mesmo cenário, criar dois contextos, cada um com sua atmosfera. Os aplausos calorosos de uma plateia seleta são a resposta ao resultado do talento do Por Mares Nunca D’antes Navegados.

A luz baixou. O auditório espremido esvaziou-se sob o eco das palmas que se seguia. Os espectadores, fora do teatro, percebiam que a garoa abrandara-se e o beco, antes escuro, era iluminado por lâmpadas vermelhas nas paredes. Mesas amontoavam-se sob os focos. Um vento frio encanado soprava e carregava as vozes do público que seguiria seu caminho, as quais, dadas variações, diziam a mesma coisa: sair de casa, hoje, valeu a pena.

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