Música fora da lei
"A Casinha" durante apresentação de Felixbravo e Serenô Foto: Daniela Carvalho
Acreditem. Há um mundo em Curitiba que produz cultura à margem do Estado. A cena musical ferve. Neste cenário estão instrumentistas, cantores e compositores que lutam por seu espaço de forma independente.
Iniciativa privada, autóctone, mantida pelos próprios entusiastas da música, o Levante de Música Curitibana provou que é possível fazer acontecer. A postura pró-ativa de um grupo de artistas cansados de depender de incentivos culturais estaduais e da estrutura de divulgação restrita a bares trouxe, de junho a setembro, o melhor da produção local.
E o melhor: o festival foi realizado no quintal de uma simpática casa de madeira próxima ao centro da capital, onde moram os idealizadores do movimento. O espaço inusitado e intimista foi batizado de “A Casinha”.
Por lá passaram músicos que nasceram, foram criados ou apenas moram em Curitiba. Bandas como Real Coletivo Dub, Molungo, Janaína Fellini, Música de Ruiz, Banda Gentileza, Universo em Verso Livre, Lívia Lakomy, Luiz Felipe Leprevost, Thiago Chaves, Felixbravo, Locomotiva Duben, MUV, Confraria da Costa e Serenô mostraram o melhor da produção cultural independente da capital.
Nas palavras de Estrela Leminksi, a iniciativa reuniu músicos que sustentam a mudança, que querem “uma cidade mais bonita para a minha banda”. Uma das experiências mais instigantes dos últimos tempos, sucesso de público, o projeto parece ter desarmado a postura curitibana de não apreciar trabalhos autorais locais. Será?
Opiniões divergem. De fato, a capital passou um longo período sem valorizar a produção local. Mas, ao mesmo tempo, muita gente lutou para mudar este cenário na última década. Se prestarmos atenção, algo está mudando.
“Hoje Garibaldis e Sacis levam às ruas 10 mil pessoas em um carnaval fora de época, por exemplo. Mas isso após muitos anos de luta”, sustenta o músico Bernardo Bravo, um dos organizadores do Levante de Música Curitibana.
O entusiasmo de Bravo é contagiante. Ele está entre muitos músicos que defendem a postura do artista de se assumir enquanto produtor. A postura de fazer, de não depender de incentivos do governo. “A ideia é produzir o nosso espaço. A Casinha, por exemplo, não tem alvará para acontecer. E quando o Estado terminar de mapear o que está acontecendo, com a sua lentidão, o movimento acabou. E surgirão outros”, disse.

Há 25 anos na área musical e líder do Kervan Saray Trio, Angelo Esmanhoto é um desses raros espécimes de artistas que parecem fazer arte pela arte foto: Melanie d'Haese
Para Bernardo Bravo a união da classe é ponto fundamental para a valorização da música paranaense autoral, opinião compartilhada pelo músico Angelo Esmanhotto. Para eles, a falta de posicionamento da classe contribui para o anonimato de grandes artistas.
“É raro vermos músicos na plateia, prestigiando shows de bandas e compositores locais. Não há apoio. A música autoral acaba relegada a um segundo plano”, lamenta Esmanhotto.
A resistência em experimentar o novo ainda é uma característica da capital. Angelo Esmanhotto que o diga. Há 25 anos na área musical, o artista é um desses raros espécimes que parecem fazer arte pela arte. E quantos de nós o conhecemos?
Em seu trabalho autoral a proposta é fazer o público parar, ouvir e sentir a música. “Como é a forma da música? Quais os arranjos? E a harmonia? Música é muito mais que um produto comercial. Ela leva à reflexão”, argumenta o compositor.
O escritor irlandês Oscar Wilde costumava dizer que “no momento em que um artista descobre o que as pessoas querem e procura atender a demanda, ele deixa de ser um artista e torna-se um artesão maçante ou divertido, um negociante honesto ou desonesto”. Sábias palavras, não?
Esmanhotto lidera o Kervan Saray Trio, que tem como influências a música barroca e renascentista. “A música esbarra com as tribos sonoras da cidade. Quantas pessoas escutamos dizer que gostam de música, ‘mas não de música clássica’. Mas, não é música? Será que elas já pararam para ouvir o novo? Aí sim, julgar?”, questiona.
Reflexo da sociedade imagética, grande parte da música produzida hoje traz consigo características fundamentalmente mercantis. Alguém consegue imaginar Lady Gaga fazendo voz e violão?
A imagem ocupa lugar privilegiado no campo das representações, é certo. Esta poderia ser uma das explicações para tantas bandas medianas estarem no topo. Rostos bonitos e bem assessorados vendem. Fato. Carisma e conteúdo nestes casos ficam para depois.
Para quem faz arte pela arte, o processo é mais complicado. É necessário ter em mente as dificuldades e se dispor a passar por inúmeras adversidades antes de poder realizar o que chamamos de obra artística musical.
Embora a internet tenha se tornado uma aliada na divulgação da música local, os espaços físicos para shows, restritos a bares, ainda prejudicam grande parte dos profissionais da área musical.
“Estes locais restringem nosso repertório. Em bares a linguagem musical tende ao comercial, não há espaço para outras formas musicais. A música pasteurizada sempre vendeu mais e nestes ambientes o lucro é o interesse”, defende Angelo Esmanhotto.

Para o músico e compositor Marcelo Brum-Lemos o tratamento dado aos artistas pelo Estado ainda tem muito a melhorar foto: Melanie d'Haese
Província autofágica? - O músico e compositor Marcelo Brum-Lemos brinca que “a melhor expressão curitibana é aquela que sabe brincar com esse nosso provincianismo – é a lição que tomamos do Paulo Leminski”.
De acordo com o artista, Curitiba tem algo de introspectivo e reflexivo em identidade cultural. Daí os nossos poetas simbolistas, Emiliano Perneta, Silveira Neto. “Na música, não tem muito daquele som percussivo que marca o que chamamos de “eixo do calor” (Rio-Nordeste). Hoje há mais misturas com essa estética, mas ainda fugimos muito do estereótipo de ‘som brasileiro’”, avalia Brum-Lemos.
“Houve uma época em que só existia espaço para bandas cover em Curitiba. Grupos como Blindagem e Relespública trabalharam muito para que A Mais Bonita da Cidade pudesse aparecer 20 anos depois”, lembra Brum-Lemos.
Na história recente da música, bandas e compositores criam seus caminhos para divulgar seus trabalhos. Hoje descobrimos trabalhos de qualidade sendo feitos em todo o Brasil. É um sinal de que a internet funciona.
A internet une e fortalece novos diálogos entre artistas e público. É possível assistir shows, eventos, participar de gravações, projetos e bate papos sobre o tema do sofá de sua sala. “O espaço virtual facilitou tudo, podemos estar em contato com redes de pessoas e veículos culturais”, acredita Marília Giller.

A pianista Marília Giller está em contato direto com músicos e grupos de pessoas que ouvem sua música e outras produções locais foto: Melanie d'Haese
A pianista participa de fóruns, blogs e espaços onde está em contato direto com músicos e grupos de pessoas que ouvem sua música e outras produções locais. “Num espaço não virtual, o caso é diferente, está relacionado a bares e projetos de festivais que estão sob o julgo de editais da Cultura, e que podem ser questionáveis”, frisa.
Cultura é uma questão de interesse público, certo? Portanto, precisa de recursos estaduais. As leis de incentivo são instrumentos que se pretendem democráticos. Mas podem melhorar. “A aprovação em Lei de Incentivo exige um ânimo inacreditável para o trabalho burocrático. O músico continua sendo tratado como um pedinte”, critica Marcelo Brum-Lemos.
“Você faz um Projeto de Lei, aprova, corre atrás do incentivo, faz o CD, sempre juntando notas fiscais. No final recebe uma carta dizendo que “se não prestar contas em um mês, estará sujeito a ação judicial”. É estranho, porque quando você faz um contrato de prestação de serviços ninguém vem te ameaçar. Só o Estado nos trata assim”, relata Brum-Lemos.
É difícil pensar no que vem pela frente. Apesar das adversidades, os artistas locais continuam fazendo o que sabem de melhor: criar. E, vontade para mudar não falta. Como afirma o poeta e dramaturgo Luiz Felipe Leprevost, “Curitiba tem singularidade cultural, o que não deixa de ser um festejo da diversidade. Com acolhimento se avança dignamente”.
VentoFrioChuva
Marcelo Brum-Lemos é um dos entusiastas do Festival VentoFrioChuva. Em sua 3ª edição, a iniciativa trouxe, de setembro a outubro, 25 atrações poético musicais curitibanas, distribuídas em nove eventos num circuito local. O movimento se firma como mais um coletivo que preza pelo autoral curitibano. “Queremos apenas assumir nossa música/poesia para nós mesmos. Nossa cidade tem a mania do ‘santo de casa não faz milagre’ quando se fala em música popular”, explica Brum-Lemos. “Queremos a nossa própria subsistência. E total independência. Mais ou menos como acontece no Rio Grande do Sul. Música/poesia curitibana para Curitiba. Chovamos nós, Curitiba!”.

Locomotiva Duben Foto: Daniela Carvalho

Banda MUV com cantora Nyara Costa Foto: Daniela Carvalho

Felixbravo e Serenô Foto: Daniela Carvalho







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