O legionário do som
A aula de guitarra já se acabara, mas nem Kadu Lambach, nem seu aluno, Felipe, perceberam que batiam dezesseis horas no relógio sobre a prateleira da estante, escondido atrás de alguns discos. Concentração pura. Dona Mariselma ficaria orgulhosa e nostálgica ao presenciar a cena e lembrar-se do pequeno Kadu, que quase quatro décadas antes, aprendia com ela os primeiros dedilhados nas cordas do violão.“Vai lá Kadu, aquela pentatônica, lembra?”, diria ela.
Kadu Lambach, músico profissional,é o nome artístico de Carlos Eduardo de Souza Lambach Júnior, que foi aprendiz de Dona Mariselma. Nos finais dos anos 60, Kadu vivia com a família no bairro Batel, em Curitiba. Enquanto Hendrix ateava fogo à sua guitarra, foi ali, na Rua Ângelo Sampaio, que com três anos de idade, Kadu deu os primeiros flertes, mesmo que inconscientes, com a música. “A música entrava pelos meus poros”, afirma. Explico por ele. Suzy Queirós, mãe de Kadu, era na época professora de piano. Chegou a lecionar na Escola de Belas Artes do Paraná, mas costumava dar aulas particulares em sua casa. Assim, Kadu absorvia o repertório erudito, de Mozart a Bach, como uma esponja. “A lembrança mais nítida que tenho dessa época é a de eu estar pendurado no piano da minha mãe, buscando sem sucesso alcançar as teclas”, diz, pescando na memória.

Quando tomava classes com Dona Mariselma, Kadu tinha oito anos de idade. Alguns anos se passaram. Anos de dedicação e partituras seguidas à risca. Na adolescência fez suas primeiras apresentações ao público, no próprio ambiente do lar. “Eu ainda era meio envergonhado, mas quando me habituei com as pessoas me olhando enquanto tocava, achei o máximo”. O pai de Kadu, Carlos Eduardo, costumava promover confraternizações em sua casa e habitar os sonhos dos vizinhos com som de qualidade. “Meu pai organizava as rodas de samba e às vezes faltava alguém para o violão. Aí ele me acordava, de madrugada mesmo, para tocar. Eu ia de pijama, sonolento ainda”, ri-se Kadu ao lembrar.Foi nessa época, com seus doze anos, que iniciou o deslanchar na música. Os hormônios da idade à flor da pele, o som de Stones, Black Sabbath, Hendrix e Elton John e o assanhamento das menininhas, despertaram em Kadu a paixão pela guitarra. Com treze anos passou a ter aulas com Célio Malgueiro, considerado um mestre por formar vários bons guitarristas na capital paranaense. “Desde o início eu amei os solos de guitarra. Quando ouvia um, eu pensava: ‘é isso que eu quero fazer’”, afirma Kadu, convicto.
O pai de Kadu Lambach era, no final dos anos 70, chefe do Escritório do Paraná, um órgão que equivale hoje a uma espécie de Secretaria de Estado. Pelas obrigações do cargo, acabou sendo transferido para Brasília e levou a família com ele. A capital federal, no meio do cerrado, era um lugar tedioso, sem atrativos ou entretenimento de qualquer tipo. “Não tinha nada para fazer lá. Eu, adolescente, queria me enturmar, fazer amigos. Foi então que, de fato, conheci a ‘tchurma’”. O encontro, ao qual Kadu refere-se, aconteceu durante a Festa dos Estados, muito tradicional em Brasília. Esse evento reunia pessoas de todos os lugares do país, de todas as camadas sociais. Na festa, havia diversas barracas. Vendia-se, em cada uma delas, os quitutes típicos do estado que representava. Como seu pai era um funcionário do governo, Kadu foi escalado para ajudar na festa. Entre porções de pinhão e copaços de vinho tinto que vendiam na barraca, conheceu a sua “tchurma”. “Eu ajudava aqui e ali na barraca, quando vi eles chegando. Era o Renato Russo, o Dinho Ouro Preto e o resto da galera do rock de Brasília”. Não foi difícil a interação. “Eu já carregava o estilo rockeirinho e eles, naturalmente, perceberam isso. Chegavam toda hora na barraca onde eu estava. ‘Vamos lá na barraca do Paraná’, falavam. Eu trocava uma ideia com eles e descolava um vinho na faixa”. Foi graças à Festa dos Estados que Kadu ganhou o apelido: Paraná, Eduardo Paraná. Por ele, seria conhecido, posteriormente, como guitarrista e fundador da banda de rock brasileira Legião Urbana.

Em Brasília, Kadu continuou a desenvolver sua música. Tocava com alguns amigos e fazia pequenas apresentações. Nessa mesma época, Renato Russo havia saído do Aborto Elétrico, uma banda de conceito do cenário brasiliense. Tornou-se, então, o “Trovador Solitário”, apelido concedido a ele pelo próprio Kadu. “O Renato andava pelas ruas com um violão, tocando músicas dele, sempre sozinho. Não tinha descrição melhor”. Na época, Kadu, aprimorado na guitarra, já fazia um som interessante, de qualidade. E foi ao fim de um concerto no Lago Norte, no qual apresentou-se, que recebeu o convite: “Quando eu desci do palco, o Renato Russo chegou em mim e disse: ‘Curti muito o seu som. Estou montando uma banda com aquele baterista (era o Marcelo Bonfá). Você quer tocar com a gente?’ Eu nem hesitei e disse sim. Ali estava a célula da Legião Urbana”.
Os ensaios da banda, até então sem nome, aconteciam na 111 Sul, casa do Kadu. O primeiro show, junto da Plebe Rude, aconteceu na Festa do Milho, um evento da cidade de Patos de Minas. Nessa oportunidade, apresentavam-se já com um nome. “O batismo da banda se deu no quarto do Renato. Estávamos nós três e o Renato jogava I-ching. Ele se amarrava nessa coisa de esoterismo. De repente ele falou: ‘Temos esses dois nomes aqui. Qual vai ser?’ Um era Legião Urbana, o outro não me lembro, mas era tão bom quanto”, conta Kadu.
Como guitarrista da Legião, Kadu chegou a fazer quatro ou cinco shows. Mas sentia que algo não o agradava. A banda começava a trilhar um caminho diferente. Ao trazer musicalidade para a banda, preocupar-se com a qualidade do som, afrontou alguns conceitos do rock que se fazia na época. “A turma do rock de Brasília preocupava-se com o estilo. A estética punk era uma ditadura. Bem na verdade eram grandes marqueteiros e isso não era para mim”. Kadu acabou cedendo à pressão: “Íamos nos apresentar e eu queria abrir com ‘O cachorro’, um instrumental nosso. Mas o Renato e o Bonfá não queriam. ‘Onde já se viu Legião Urbana abrir um show com instrumental’, diziam. Então eu resolvi: querem saber? Vou sair da banda”.

Carlos Eduardo de Souza Lambach Junior, que fora Eduardo Paraná, tornou-se Kadu Lambach. Como músico independente, fez trabalhos no eixo Rio-São Paulo e cidades do interior do Brasil. Tempo depois, retornou à capital federal, onde se formou em Música, pela UnB (Universidade de Brasília). “Quando voltei a Brasília, eu tocava na noite com uma rapaziada, de forma paralela à fama da Legião. Era engraçado. Logo depois da entrada do Dado Villa-Lobos, a banda estourou no país inteiro”.
Se questionado acerca do sucesso da banda posterior a sua saída, se guarda algum rancor, responde risonho: “Nenhum rancor ou mágoa. Eles seguiram o caminho deles e eu o meu. Por muito tempo o Renato foi meu conselheiro. Ele dizia: ‘Paraná, se a sua praia é o instrumental, faça. Mas toque o coração das pessoas com ele’. Aliás, fui eu quem incentivou o Dado a assumir a guitarra. Ele dizia que tocava mal, mas eu insistia: ‘Vai lá Dado, você é o cara’”. Hoje, Kadu reside em Curitiba, para onde voltou a fim de realizar um mestrado que nunca completou. Apresenta-se em vários locais da capital e leciona como professor particular.Desde 1983, quando deixou a Legião Urbana, Kadu gravou dois discos instrumentais: “Last Blues”, lançado em 1997, e “Microfonia”, gravado em 1999, e ainda não lançado, que conta com a participação do baixista norte-americano Stanley Clark.
Para 2012, são duas suas promessas. “Desse ano não passa. Será lançado o ‘Expressivo’, meu terceiro disco, e o ‘KaduLambach – O legionário do som’, no qual vou gravar, após ganhar o aval da família Manfredini, grandes sucessos da Legião Urbana na pegada instrumental”, revela Kadu, em seu apartamento bem arejado, em meio a gritos de crianças, vindos da Praça Oswaldo Cruz.
Foto abertura: Renan Machado







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