O velho e o mar
Hoje morador de um lar de idosos, Wilson Moreira, jornalista de profissão e anarquista oculto, exerceu o ofício de imprensa na época do regime militar
Wilson, favor comparecer à recepção – anunciava o megafone. Coadjuvante como jornalista que prezou o ofício e a responsabilidade que lhe acompanha acima de vaidades pessoais. Este é Wilson Moreira, fã de jazz, Simone de Beauvoir e filosofia política, ciência que é, segundo ele, o grande amor de sua vida.
Em uma sala neutra, ao lado de outra da qual emanava música, sentou-se pronto a contar sua história. Nos seus 73 anos de vida, Seu Wilson (“Seu”, grifo por respeito a esse guri septuagenário), perambulou por todo canto. Viveu no Rio de Janeiro, São Paulo e enfim, Curitiba, cidade a qual, apesar de não ser nascido, considera sua casa: “sou curitibano e coxa-branca de coração”, afirma. Desde 2009, reside no Recanto do Tarumã, lar de idosos da capital para onde se mudou após a temporada que viveu no Rio.
E la nave va Não se sabe o exato local do nascimento de Wilson, que veio ao mundo a bordo de um navio. Seu pai trabalhava como comandante para a Lloyd, empresa de marinha mercante. “Papai começou como taifeiro na Lloyd: descascava batatas, lavava pratos e o convés. Por meio do curso de pilotagem, chegou ao posto de comandante.”
O pai era turista em casa. Em 1939, uma avaria no casco lhe atrasou a volta da Europa, junto da esposa, grávida de cinco meses. Por ocasião, Seu Wilson nasceu em algum ponto da costa brasileira, entre os estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Seu registro se deu anos depois, em 1943, em São Francisco do Sul.
A infância de Wilson se passou em maior parte na Rua Mauá, aos fundos do Couto Pereira, em Curitiba. Com onze anos, mudou-se com a mãe para Porto Alegre, onde concluiu os estudos fundamentais e deu início ao curso superior de filosofia, na Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1963.
Wilson trabalhou como jornalista, oficialmente, na década de 60. Começou aos 17 anos no jornal Diário de Notícias, em Porto Alegre. No início de 1969, depois de quase uma década como colaborador de jornais brasileiros, teve a carteira de jornalista caçada pelo regime militar. “Fui processado como comunista. Um dia, dois militares entrevistaram-me acerca de minha ideologia. Disseram-me: ‘Então o senhor é comunista?’, respondi-lhes: ‘Não companheiros, estou à esquerda do comunismo. Sou um ‘cripto-anarquista’, ou seja, um anarquista oculto. Não falo de minha visão política, mas sou a favor da ausência de um Estado. Naturalmente, perdi minha carteira de jornalista e nunca recuperei-a.”
Após tempo em clandestinidade, retomou o trabalho da comunicação de forma não oficial. Além de escrever artigos de opinião, passou a prestar assessoria política. “Fui ghost writer e assessor de políticos honestos e corruptos. Em Porto Alegre, por exemplo, trabalhei com o falecido Telmo Thompson Flores, conhecido como o ‘prefeito dos viadutos’. Homem visionário e honesto, com h maiúsculo.”
De acordo com Wilson, ser jornalista é pensar a vida. “Todo mundo é filósofo. O jornalista é filósofo. Este deve repetir incansavelmente aquela palavra mágica: ‘será?’. O jornalista é o intérprete da sociedade, capaz de fazer com que os homens de poder melhorem algo desse nosso mundão”, afirma ele, enquanto retumba na sala ao lado um samba de roda.







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