Quando cai a caixinha e o pé sai do chão
De supetão, quando você menos espera, essa pessoa surge do nada e te pega totalmente de surpresa. Um belo dia aparece em vermelho aquele ícone no teu Facebook avisando que você tem uma “solicitação de amizade”, muito da insuspeita, aguardando para ser aceita. Seguindo as regras da boa etiqueta virtual, você dá-lhe as boas-vindas educadamente e posta um cumprimento cordial. Mas na hora teu coração dispara. Logo em seguida, ele para de bater tum-tum e passa a bater um tunch-tunch enlouquecido quando você vai olhar as fotos e fuçar o mural desta amizade recém-aparecida. Uma mensagem aqui, um bate-papo ali, um e-mail hoje, um telefonema amanhã. E vem o encontro. Na verdade, um reencontro que assume em poucos segundos proporções vulcânicas que o brilho dos teus olhos e o sorriso nos teus lábios são incapazes de esconder.
Este ser chega e toma conta do pedaço sem a menor cerimônia. Na maior cara dura, se instala no seu coração e ainda faz questão de tirar seu fôlego por alguns segundos, várias vezes ao dia. Varre para fora todo mundo sem perguntar nem quem são, de onde vieram ou para onde vão. E ainda pendura uma placa desaforada e em bom português: “aqui não tem pra mais ninguém”! Sem tampouco se importar, você vai lá e concorda plenamente.
A cada dia, você acorda, trabalha (assobiando) e vai dormir pensando somente nela: a pessoa mais especial que já passou pela sua vida. Sabe-se lá como ela conseguiu escapar daquela gavetinha onde você a guardou com tanto carinho e por tanto tempo. Mas voltou e veio com tudo. Muita coisa ficou pelo caminho, você se esforça para lembrar algumas, umas perderam-se para sempre e outras vão sendo revividas durante as intermináveis conversas que acontecem naturalmente. A redescoberta é sedutora. Em todos os sentidos, teu corpo respira aquele ser. Ouve suas palavras quando ele não está falando, toca a sua pele quando ele não está por perto, sente o seu cheiro só de pensar e é capaz de formar uma escultura fiel em 3D até de olhos fechados e sob anestesia geral.
Ah, e as ferramentas da vida moderna, que maravilha! Naquela época, a comunicação entre vocês era na base da carta. Dá-lhe caprichar na caligrafia, inaugurar uma caneta Bic nova, comprar um papel especial na papelaria do bairro, borrifar o seu perfume no envelope, ir ao correio, escolher um selo bacana, mandar a carta e esperar o carteiro trazer a resposta. Todo um ritual.
Agora vocês podem “skypar” a hora que quiserem e que o coração apertar sufocado de saudade. Sem se importar com o tempo que passou e a idade que ostentam, ambos se comportam como os adolescentes que um dia já foram, mas que ainda existem (sim!) dentro de cada um. É pipocar o sinal de mensagem no celular que teu coração dá um pulo. Se tocar o telefone, então, aí as pernas amolecem de vez. Agora, se for o ícone do Skype avisando que “a pessoa” está online, aí a caixinha cai!
A ficha você conhece, mas a caixinha não tem a menor ideia do que é, onde fica e o que faz? Ora, ora...
No tempo das cartas postadas na agência do correio, ouvi da minha avó – ainda viva, saudável e feliz aos 95 anos – que nada mais importava na vida amorosa de uma pessoa, se a sua caixinha caísse e o pé saísse do chão ao beijar. A caixinha é um objeto imaginário altamente poderoso que fica estrategicamente localizada dentro do peito, na fronteira da barriga. Quando irremediavelmente apaixonada, a caixinha é destravada e percorre lepidamente o trecho entre a garganta e o baixo ventre, efetuando piruetas mais iradas que os aviões da Esquadrilha da Fumaça. Tem horas que ela tenta fugir pelo umbigo. Em outras, você a sente percorrer cada ossinho da sua coluna. Cosquinhas no estômago, suores nas mãos, tremores na pele e olhos virados são sintomas de que a caixinha enlouqueceu e saiu de controle. Ótimo, parabéns, você conseguiu! Quando a tua caixinha cai e você tira um pé do chão ao beijar – só então – você pode dizer: “meu primeiro amor voltou”.
Se a tua caixinha caiu com alguém algum dia na sua vã vida, volte no tempo, pare tudo, dê um Google, contrate um detetive, chame o 007, mas trate de encontrar essa pessoa o quanto antes. Se vire, mas não deixe escapar novamente o melhor sentimento da vida: o amor apaixonado que você sentiu pela primeira vez por alguém. Só o primeiro amor da nossa vida faz nossa caixinha cair de forma inesquecível e nossos dois pés levitarem ao mesmo tempo. P.S: estamos no mês dos namorados. Boa sorte com a sua caixinha!







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