A rua é sua
“Esse é o melhor evento da cidade.” A frase era repetida, mais de uma vez, por mais de uma pessoa durante o sábado, 25 de fevereiro, na Quadra Cultural. O evento, que aconteceu das 11 às 22 horas, é uma iniciativa do empresário Arlindo Ventura, proprietário do bar O Torto. O prefeito de Curitiba, Luciano Ducci, foi prestigiar o acontecimento, que reuniu 10 mil pessoas, e anunciou que a partir de agora a Quadra Cultural faz parte, oficialmente, do calendário cultural da cidade de Curitiba.
Não há segredo para esse sucesso. A Quadra Cultural é fruto de muito trabalho, e da vontade, do Arlindo Ventura, de promover uma festa popular. Magrão, como ele é conhecido, é um paulista que se radicou em Curitiba, trabalhou como balconista, frentista em estacionamento, até que, há alguns anos, abriu o seu próprio negócio. O Torto, situado na esquina das ruas Paula Gomes e Duque de Caxias, no São Francisco, é muito mais do que um bar. Tornou-se ponto de encontro.
Há quem diga – Luiz Geraldo Mazza é um deles – que O Torto é a nova Boca Maldita, uma vez que é ali que os assuntos são discutidos, as tendências, anunciadas, por um público variado, amplo e cosmopolita.
Desde 2009, Magrão promove, no primeiro sábado após o Carnaval, a Quadra Cultural, no entorno do Torto. Este ano, o público teve a oportunidade de conferir, a partir das 11 horas, apresentações das bandas Wandula, Confraria da Costa, Uh La La!, Klezmorin e Gente Boa da Melhor Qualidade – todas atrações locais. Às 20 horas, o paulistano Germano Mathias entrou em cena com toda ginga que o tornou conhecido como o sambista do asfalto, respeitado por nomes como Roberta Sá e Gilberto Gil.

A céu aberto
Os ingredientes para o sucesso da Quadra vão além de acordes, guitarras distorcidas, bossas e outros sons. “A Quadra é um exercício de cidadania.” A frase, do jornalista Luiz Geraldo Mazza, ajuda a entender o evento. A ação de seguranças particulares, contratados por Magrão, que faziam revistas nos pontos de acesso, a proibição da venda de bebida destilada, entre outras medidas, contribuíram para o convívio pacífico. A Polícia Militar, presente durante todo o sábado no local, não registrou absolutamente nenhuma ocorrência.
Mas o espírito desarmado da população foi o que viabilizou, de fato, o clima da festa. Diferentemente dos ambientes fechados, praticamente a única alternativa para convívio em Curitiba, a Quadra Cultural proporcionou o encontro a céu aberto. No entorno das ruas Duque de Caxias e Paula Gomes, havia uma feira com barracas a comercializar roupas, discos de vinil, pastéis e, uma novidade no evento, um estande de uma nova editora curitibana.
O selo Tulipas Negras promoveu a sua estreia durante a Quadra com a distribuição gratuita de 4 mil livros, mil de quatro autores: Compressa, de Cristiano Castilho; Pantera, de Fábio Campana; Helena, de Renan Machado, e 934, de Marcio Renato dos Santos.
Toda a tiragem esgotou por volta das 19h30. Os autores, que estavam presentes durante o evento, disseram que o selo surgiu fazendo sucesso, e esse resultado positivo só foi possível porque o lançamento aconteceu durante a Quadra Cultural.

Pós-autofagia
Essa celebração multicultural a céu aberto é um termômetro da transformação pela qual a cidade de Curitiba passa, aos 319 anos. Os curitibanos consomem, endossam, assimilam e aprovam a produção cultural nativa, o que desmonta a tese da autofagia – ideia-força que dava a entender que os curitibanos batiam palmas para tudo, menos para a expressão de seus semelhantes.
Arlindo Ventura conta que a Quadra Cultural surgiu de uma experiência que ele teve quando criança. A sua mãe o levou para uma festa de rua, na qual o cantor Roberto Leal era uma das atrações. Agora, anos depois daquele dia, é ele, Magrão, quem promove uma festa que faz com que os curitibanos tenham a sensação de que a rua é, de novo, deles.

Fotos João Le Senechal







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