TARJA PRETA NA CABEÇA
Nunca antes na história deste país se usou tanto ansiolítico. Indicados para o controle de ansiedade e tensão, estão no topo da lista dos remédios mais consumidos pela população brasileira entre 2007 e 2010, apesar de serem de uso controlado.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou no último dia 20 de janeiro boletim técnico contendo uma série de informações a respeito do consumo de medicamentos controlados. De acordo com o Boletim do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados, desde 2007 os ansiolíticos feitos a partir de substâncias como clonazepam, bromazepam e alprazolam são os mais consumidos entre os 166 princípios ativos listados na Portaria nº 344, que inclui também as substâncias usadas em outros medicamentos de uso controlado, como emagrecedores e anabolizantes.
Segundo a Anvisa, esses inibidores do sistema nervoso central têm sido mais consumidos no Brasil do que muitos medicamentos que não exigem receita médica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030 – atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem do problema.
Tarja preta
Os ansiolíticos estão entre os remédios conhecidos popularmente por “tarja preta”, que só poderiam ser comprados em farmácias registradas e autorizadas pela Anvisa a comercializar os medicamentos listados na Portaria nº 344. De acordo com a Anvisa, a venda legal de Rivotril (clonazepam) saltou de 29,46 mil caixas em 2007 para 10,59 milhões em 2010, os brasileiros gastaram ao menos R$ 92 milhões com Rivotril, em seguida vem o segundo mais comercializado, Lexotan (bromazepan), que vendeu, em 2010, 4,4 milhões de unidades. Já o Frontal (alprazolam) registrou 4,3 milhões de unidades.
Para se ter uma dimensão regional, só no Paraná foram consumidas em 2010 mais de 700 mil caixas de medicamentos que contêm o clonazepam.
Depressão X Tristeza
A economista Luciana Silva, 33, toma remédio para síndrome do pânico, um tipo de transtorno de ansiedade patológico, há 15 anos. Ela foi diagnosticada aos 18. “Tomo ansiolítico todos os dias. Tentei vários, pois sofria com os efeitos colaterais. Senti tonturas, náuseas, boca seca, insônia, etc. Hoje me adaptei com Rivotril, mas no início me fez muito mal. Orientada pelo meu psiquiatra, diminuí a dose e me encaixei”, explica a economista.
Luciana faz terapia também e diz que tentou parar de tomar o remédio, mas que as crises eram frequentes. “Sei que tenho esse problema então tenho que tratá-lo dessa maneira”, conclui.
Já o caso do engenheiro Ricardo Alves, 47, foi diferente. Ele passou por um período difícil, depois que sua mulher faleceu o ano passado, eles estavam casados havia 15 anos. “Sentia que minha vida tinha acabado, foi uma ruptura no meu dia a dia, tudo mudou”, conta. Alves diz que sentia apatia, tristeza, cansaço, e foi a um clínico geral, que diagnosticou estresse pós-traumático e receitou um “tarja preta”. “Tinha consciência que era um período difícil, mas sempre tive um receio com esses remédios. O mais estranho foi que o médico não fez nenhum exame mais aprofundado”. Mesmo assim, Alves tomou o ansiolítico durante três meses. “Conseguia dormir melhor, mas parei. Sempre fiquei em dúvida se precisava realmente tomar ansiolítico”, questiona.
Segundo o psiquiatra mineiro Miguel Chalub, em entrevista à Revista Istoé, existe uma diferença entre a “tristeza normal e a patológica”. Mas o despreparo dos demais especialistas não seria o único motivo do que o médico chama de “medicalização da tristeza”. Muitos profissionais se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. “Os laboratórios pagam passagens, almoços, dão brindes. Você, sem perceber, começa a fazer esse jogo. Há a tendência de achar que o medicamento vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade”, explica o psiquiatra.
Prescrição indiscriminada
O psiquiatra Lauro Cardoso aponta que a prescrição indiscriminada e o uso excessivo podem ser algumas das explicações para o alto consumo de ansiolíticos. Segundo o psiquiatra, os ansiolíticos têm sido indicados por profissionais de diversas áreas. “Sabemos que médicos de várias especialidades prescrevem esses remédios, sem necessariamente ser psiquiatras”, revela.
Este não é, porém, o único fator que pode explicar o boom dos calmantes no Brasil, ressalta Cardoso. O uso descontrolado também está entre os fatores. É cada vez mais comum recorrer aos tranquilizantes para enfrentar o estresse e as dificuldades da vida cotidiana. O pior é que esse tipo de remédio provoca dependência”, afirma o psiquiatra.
De acordo com o médico, o melhor monitoramento do consumo dos ansiolíticos no País reflete também os números elevados. Atualmente, o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Anvisa tem cadastradas 41.032 farmácias e drogarias, equivalente a 58,2% do total dos estabelecimentos autorizados pela agência reguladora a vender medicamentos controlados. Além disso, o preço baixo dos ansiolíticos contribui para o alto consumo. Uma caixa de Rivotril sai na faixa de R$ 10 reais.
O consumo indevido de medicamentos em geral, e de psicotrópicos em particular, representa um grande problema de saúde pública, de acordo com a Anvisa. Portanto, é bom ficar atento e não cair em fórmulas fáceis e eficazes. Tristeza, sofrimento e dor são parte da vida. Depressão e transtornos mentais devem ser tratados com seriedade e cuidados médicos. Quando a emoção e a doença se tornam “moeda”, algo de muito errado acontece no reino da medicina e a palavra “consumo” ocupa todos os seus significados. O perigo é transformar a doença num negócio, por sinal, extremamente lucrativo.
O manual de diagnóstico - DSM
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM) é um manual para profissionais da área da saúde mental que lista diferentes categorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los, de acordo com a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association - APA). É usado ao redor do mundo por clínicos e pesquisadores bem como por companhias de seguro, indústria farmacêutica e parlamentos políticos. Existem quatro revisões para o DSM desde sua primeira publicação em 1952. A maior revisão foi a DSM-IV publicada em 1994. O DSM-V está atualmente em discussão, planejamento e preparação, para uma nova publicação em maio de 2013.
Teoria
A teoria que as doenças mentais são causadas por desequilíbrios químicos surgiu por volta da década de 1950 com a adaptação de três remédios originalmente destinados para tratar infecções.
1954: Amplictil (clorpromazina): usado em hospitais psiquiátricos, para acalmar pacientes psicóticos, sobretudo os com esquizofrenia.
1955: Miltown (meprobamato): vendido para tratar a ansiedade em pacientes ambulatoriais.
1957: Marsilid (iproniazid): entrou no mercado para tratar a depressão.
Em três anos, tornaram-se disponíveis medicamentos para tratar as três principais categorias de doença mental nessa época – ansiedade, psicose e depressão.
Princípios ativos
Clonazepam - Rivotril
O clonazepam pertence a uma família de remédios chamados benzodiazepínicos, que possuem como principais propriedades inibição leve de várias funções do sistema nervoso permitindo com isto uma ação anticonvulsivante, alguma sedação, relaxamento muscular e efeito tranquilizante.
Bromazepam – Lexotan
Substância química de classe benzodiazepínica, com propriedades específicas que o indicam como medicamento ansiolítico, hipnótico, relaxante neuro-músculo-esquelético e sedativo.
Alprazolam – Frontal
Utilizado em distúrbios da ansiedade e em crises de agorafobia. A benzodiazepina estimula os efeitos do ácido gama-aminobutírico (GABA), reduzindo a ansiedade moderada e ansiedade associada à depressão. Também possui propriedades sedativas, hipnóticas, anticonvulsivantes e de relaxamento muscular.







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